As Vítimas Algozes Joaquim Manuel de Macedo (Resumo)

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No interior e principalmente longe da vila, ou da freguesia e dos povoados há quase sempre uma venda perto da fazenda: é a parasita que se apega à árvore; pior que isso, é a inimiga hipócrita que rende vassalagem à sua vítima.

A venda de que falo é uma taberna especialíssima que não poderia existir, manter-se, medrar em outras condições locais, e em outras condições do trabalho rural, e nem se confunde com a taberna regular que em toda parte se encontra, quanto mais com as casas de grande ou pequeno comércio, onde os lavradores ricos e pobres se provêem do que precisa a casa, quando não lhes é possível esperar pelas remessas dos seus consigna­tários ou fregueses.

Essa parasita das fazendas e estabelecimentos agrícolas das vizinhanças facilmente se pode conhecer por suas feições e modos característicos, se nos é lícito dizer assim: uma se parece com todas e não há hipótese em que alguma delas, por mais dissimulada que seja, chegue a perder o cará­ter da família.

É uma pequena casa de taipa e coberta de telha, tendo às vezes na frente varanda aberta pelos três lados, também coberta de telha e com o teto sustido por esteios fortes, mas rudes e ainda mesmo tortos; as paredes nem sempre são caiadas, o chão não tem assoalho nem ladrilho; quando há varanda, abrem-se para ela uma porta e uma janela; dentro está a ven­da: entre a porta e a janela encostado à parede um banco de pau, defronte um balcão tosco e no bojo ou no espaço que se vê além, grotesca armação de tábuas contendo garrafas, botijas, latas de tabaco em pó, a um canto algumas voltas de fumo em rolo e uma ruim manta de carne-seca. Eis a venda.

Há muitas que nem chegam à opulência da que aí fica descrita; em todas porém aparece humilde no fundo do quase vazio bojo a porta baixa que comunica pelo corredor imundo com dois ou mais quartos escuros, onde se recolhem as pingues colheitas agrícolas do vendelhão que aliás não tem lavoura.

A venda é pouco freqüentada à luz do sol nos dias de serviço; nunca porém, ou raramente se acha solitária: ainda nesses mesmos dias de santo dever do trabalho, homens ociosos, vadios e turbulentos jogam ao balcão com um baralho de cartas machucadas, enegrecidas e como oleosas desde a manhã até o fim da tarde, e é milagre faltar algum incansável tocador de viola; mas apenas chega a noite, começa a concorrência e ferve o negócio.

Explorador das trevas protetoras dos vícios e do crime, o vendelhão baixo, ignóbil, sem consciência, paga com abuso duplo e escandaloso a garrafas de aguardente, a rolos de fumo, e a chorados vinténs o café, o açúcar e os cereais que os escravos furtam aos senhores; e cúmplice no furto efetuado pelos escravos, é ladrão por sua vez, roubando a estes nas medidas e no preço dos gêneros.

A venda não dorme: às horas mortas da noite vêm os quilombolas escravos fugidos e acoitados nas florestas, trazer o tributo de suas depredações nas roças vizinhas ou distantes ao vendelhão que apura nelas segunda colheita do que não semeou e que tem sempre de reserva para os quilombolas recursos de alimentação de que eles não podem prescindir, e também não raras vezes a pólvora e o chumbo para a resistência nos casos de ataque aos quilombos.

E o vendelhão é em regra a vigilância protetora do quilombola e o seu espião dissimulado que tem interesse em contrariar a polícia, ou as diligências dos senhores no encalço dos escravos fugidos.

Desprezível e nociva durante o dia, a venda é esquálida, medonha, criminosa e atroz durante a noite: os escravos, que aí então se reúnem, embebedam-se, espancam-se, tornando-se muitos incapazes de trabalhar na manhã seguinte; misturam as rixas e as pancadas com a conversação mais indecente sob o caráter e a vida de seus senhores, cuja reputação é ultrajada ao som de gargalhadas selvagens:

inspirados pelo ódio, pelo horror, pelos sofrimentos inseparáveis da escravidão, se expandem em calúnias terríveis que às vezes chegam até a honra das esposas e das filhas dos senhores; atiçam a raiva que todos eles têm dos feitores, contando histórias lúgubres de castigos exagerados e de cruelíssimas vinganças, a cuja idéia se habituam; em sua credulidade estúpida e ilimitada esses desgraçados escutam boquiabertos a relação dos prodígios do feitiço, e se emprazam para as reuniões noturnas dos feiticeiros; e uns finalmente aprendem com outros mais sabidos a conhecer plantas maléficas, raízes venenosas que produzem a loucura ou dão a morte, e tudo isto e muito mais ainda envolta com a embriaguez, com a desordem, com o quadro da abjeção e do desavergonhamento já natural nas palavras, nas ações, nos gozos do es­cravo.

Aos domingos e nos dias santificados, a venda tem centuplicadas as suas glórias nefandas, aproveita a luz e as trevas, o dia e a noite, e por isso mesmo cada lavrador conta de menos na roça e demais na enfermaria al­guns escravos na manhã do dia que se segue.

De ordinário, pelo menos muitas vezes, é nessas reuniões, é nesse foco de peste moral que se premeditam e planejam os crimes que ensangüen­tam e alvoroçam as fazendas. Na hipótese de uma insurreição de escravos, a venda nunca seria alheia ao tremendo acontecimento.

Todavia tolera-se a venda: o governo não pode ignorar, a polícia local sabe, os fazendeiros e lavradores conhecem e sentem que essa espelunca ignóbil é fonte de vícios e de crimes, manancial turvo e hediondo de pro­funda corrupção, constante ameaça à propriedade, patíbulo da reputa­ção, e em certos casos forja de arma assassina; porque é e será sempre o ponto de ajuntamento de escravos onde se conspire ou se inicie a conspi­ração; e ainda assim a venda subsiste e não há força capaz de aniquilá-la.

Porquê?…

É que se proibissem a venda, de que trato, se lhe fechassem a porta, se lhe destruíssem o teto, ela renasceria com outro nome, e, como quer que fosse, e, onde quer que fosse, havia de manter-se, embora dissimulada e abusivamente.

A lógica é implacável.

Não é possível que haja escravos sem todas as conseqüências escandalo­sas da escravidão: querer a úlcera sem o pus, o cancro sem a podridão é loucura ou capricho infantil.

Perigosa e repugnante por certo, e ainda assim não das mais formidá­veis conseqüências da escravidão, a venda de que estou falando é inevitá­vel; porque nasce da vida, das condições, e das exigências irresistíveis da situação dos escravos.

A venda é o espelho que retrata ao vivo o rosto e o espírito da escravi­dão.

Se não fosse, se não se chamasse venda, teria outro e mil nomes no pa­tuá do escravo; seria uma casa no deserto, um sítio nas brenhas; estaria na gruta da floresta, em um antro tomado às feras, mas onde iria sempre o escravo, o quilombola, vender o furto, embriagar-se, ultrajar a honra do senhor e de sua família, a quem detesta, engolfar-se em vícios, ouvir con­selhos envenenados, inflamar-se em ódio, e habituar-se à idéia do crime filho da vingança; porque o escravo, por melhor que seja tratado, é, em regra geral, pelo fato de ser escravo, sempre e natural e logicamente o pri­meiro e mais rancoroso inimigo de seu senhor.

O escravo precisa dar expansão à sua raiva, que ferve incessante, e es­quecer por momentos ou horas as misérias e os tormentos insondáveis da escravidão; é na venda que ele se expande e esquece; aí o ódio fala licen­cioso e a aguardente afoga em vapores e no atordoamento a memória.

Entretanto, a venda é horrível; é o recinto da assembléia selvagem dos escravos, onde se eleva a tribuna malvada da lascívia feroz, da difamação nojenta e do crime sem suscetibilidade de remorso; ali a matrona veneranda, a esposa honesta, a donzela-anjo são julgadas e medidas pela bitola da moralidade dos escravos; o aleive é aplaudido e sancionado como verdade provada, e o aleive se lança com as formas esquálidas da selvatiqueza que fala com a eloqüência do rancor sublimizado pelo álcool; ali se acendem fúrias contra os feitores e os senhores: ali se rouba a fazenda e se fazem votos ferozes pela morte daqueles que se detestam, porque, é im­possível negá-lo, são opressores.

E não há para suprimir a venda, essa venda fatal, que rouba, desmoraliza, corrompe, calunia e às vezes mata, senão um só, um único meio: é suprimir a escravidão.

Não há; porque a venda está intimamente presa, imprescindivelmente adunada à vida do escravo; sem ela, os suicídios dos escravos espantariam pelas suas proporções.

Onde houver fazendas, haverá por força a venda perversa, ameaçadora, infamíssima, como a tenho descrito e a conhecem todos, sem exceção, todos os lavradores.

Não há rei sem trono, não há família sem lar, nem aves sem ninho, nem fera sem antro; o trono, o lar, o ninho, o antro do escravo é, antes da senzala, a venda.

A venda, que vos parece apenas repugnante, corruptora, ladra e infa­me, é, ainda mais, formidável e atroz; mas em todos esses atributos digna, legítima filha da escravidão, que a gerou, criou, sustenta, impõe, e que há de mantê-la arraigada à sua existência.

É um mal absolutamente dependente, porém inseparável de outro mal; não é causa, é efeito; não é árvore, é fruto de árvore.

Se quiserdes suprimir a venda-inferno, haveis de suprimir primeiro a escravidão-demônio.

Era em uma dessas vendas sinistras como a que acabamos de descrever.

O sítio era solitário; a estrada rompia pelo meio vasta floresta que cortava sinuosa, e, descendo declive suave, ia atravessar tênue corrente d’água alimentada por brejal vizinho e de novo se perdia, como embe­bendo-se no seio do bosque.

A venda mostrava-se triste à beira da estrada, que em sua frente se alargava cerca de seis ou oito braças; tinha ao lado direito o brejal a esten­der-se para trás, e ao esquerdo e pegada à casa uma rude tranqueira de pau, dando entrada para um terreiro imundo, que se adiantava pouco além da cozinha. Não havia criação no terreiro; apenas a ele se recolhiam à noite um porco, que chafurdava na lama, e um casal de patos, que grasnavam no brejo.

A venda se isolava na solidão, mas não longe de fazendas e sítios, que se anunciavam de madrugada pelo cantar dos galos, à tarde pelo mugir dos bois, à noite pelo latir dos cães.

Os cavaleiros e viandantes que passavam às vezes durante o dia, não se lembravam nunca de chegar-se ou parar àquela venda desprezível, onde em compensação faziam sempre estação demorada os escravos carreiros ou tropeiros que iam ou voltavam, conduzindo gêneros.

Entretanto, aquele teto miserável, albergue de vícios e torpezas, jamais se achava em abandono de fregueses.

Há poucos anos, em um dia calmoso do mês de fevereiro, viam-se às três horas da tarde nessa venda certas figuras, formando um quadro quase constantemente ali observado com insignificantes modificações até a hora do negro concurso noturno.

Para dentro do balcão estava um menino de doze anos, de pés no chão, vestido de calças e camisa que desde um mês não mudava, e cuja cor e qualidade do pano escapariam ao mais teimoso exame; era o caixeiro mandrião, e já perdido pela desmoralização, pela incontinência da pala­vra e pela convivência com os vadios e os escravos. À porta da venda via-se em pé a olhar a estrada um homem de meia-idade, cabeludo, amarelo, em mangas de camisa com o colarinho desabotoado, o peito à mostra, e calçando grandes tamancos: era o vendelhão.

Em uma extremidade do balcão sentava-se um homem avelhantado, tendo as pernas pendidas, os pés descalços, os vestidos remendados, um velho chapéu de palha na cabeça, e ao peito uma viola, em que tocava de contínuo as músicas rudes dos fados. Na outra extremidade do balcão quatro sujeitos moços quase todos, um ainda imberbe, todos quatro mais ou menos miseravelmente vestidos, jogavam o pacau, rixando a todo mo­mento, e não se poupando acusações de furtos e de fraude no jogo.

Um último freguês enfim, figura sinistra, tendo olhos de tigre, boca, por assim dizer, sem lábios, e com imensa barba malcuidada, parecia dor­mir estendido em um banco de pau defronte do balcão.

De espaço em espaço a aguardente inspirava o tocador de viola e ani­mava os jogadores.

Às quatro horas da tarde um cavalo, correndo à desfilada, veio estacar à porta da venda, pondo-se o cavaleiro de um salto no chão.

O cavaleiro era um crioulo escravo ainda muito jovem.

— Oh!… O grande Simeão!… – exclamou o vendelhão, abraçando o escravo.

— Uma pinga que estou com muita pressa – disse este, e correu para dentro da venda.

Simeão recebeu logo um copo cheio de aguardente, que bebeu de uma vez, atirando o resto à cara do menino, que o servira.

Simeão devia ter vinte anos: era um crioulo de raça pura africana, mas cujos caracteres físicos aliás favoravelmente modificados pelo clima e pe­la influência natural do país onde nascera, não tinham sido ainda afeiados pelos serviços rigorosos da escravidão, embora ele fosse escravo.

Havia em seus modos a expansão que só parece própria do homem li­vre: ele não tinha nem as mãos calejadas, nem os pés esparramados do ne­gro trabalhador de enxada: era um escravo de cabelos penteados, vestido com asseio e certa faceirice, calçado, falando com os vícios de linguagem triviais no campo, mas sem a bruteza comum na gente da sua condição; até certo ponto, pois, aceito, apadrinhado, protegido e acariciado pela fa­mília livre, pelo amor dos senhores.

A história de Simeão tem mil histórias irmãs até aos vinte anos, que ele conta; há de, portanto, trazer à memória mil histórias, como a sua, cheia de desgostos e de ressentimentos de ingratidão, que aliás, sem o pensar, os benfeitores cimentam. A história que vai seguir-se depois dos vinte anos talvez lembre alguma infelizmente mais ou menos semelhante, e cu­jo horror é somente um dos frutos e dos horrores da escravidão.

Sementeira de venenosos espinhos, a escravidão não pode produzir flo­res inocentes.

A história de Simeão ainda não criminoso é simples: muitos dos leito­res deste romance a encontrarão realizada, viva, eloqüentemente exposta no seio de seu lar doméstico.

Domingos Caetano teve de sua mulher muito e bem merecidamente amada uma filha que satisfizera os doces votos de ambos. Angélica, a no­bre esposa e virtuosa mulher, não pôde ter a dita de amamentar o seu an­jo, e confiou-o aos peitos de uma escrava que acabava de ser mãe como ela: a escrava que amamentara dois filhos, o próprio e o da senhora, morreu dois anos depois, e Angélica pagou-lhe a amamentação da sua queri­da Florinda, criando com amor maternal o crioulinho Simeão, colaço de sua filha.

A compaixão e o reconhecimento em breve se transformaram em ver­dadeira afeição: o crioulo era esperto e engraçado, começou fazendo rir, acabou fazendo-se amar. Simeão divertia, dava encanto às travessuras de Florinda: Domingos Caetano e Angélica o amaram em dobro por isso.

Até os oito anos de idade Simeão teve prato à mesa e leito no quarto de seus senhores, e não teve consciência de sua condição de escravo. Depois dos oito anos apenas foi privado da mesa e do quarto em comum; conti­nuou, porém, a receber tratamento de filho adotivo, mas criado com amor desmazelado e imprudente, e cresceu enfim sem hábito de traba­lho, abusando muitas vezes da fraqueza dos senhores, sem atingir a digni­dade de homem livre, e sem reconhecer nem sentir a absoluta submissão do escravo.

Era o tipo mais perfeito do crioulo, cria estimada da família.

Mais de uma vez parentes e amigos de Domingos Caetano e Angélica disseram a um ou outro, mostrando Simeão:

— Estão criando um inimigo: a regra não falha.

E Domingos respondia:

— Coitado! Ele é tão bom!

E Angélica dizia sorrindo-se:

É impossível que nos seja ingrato.

— Ainda não houve um que o não fosse! – tornavam-lhes debalde; porque os senhores de Simeão nem por essas já triviais advertências menos condescendentes e afetuosos se mostravam com o seu crioulo estimado.

Breve reflexão de passagem.

As apreensões da ingratidão e da inimizade desses escravos, crias predi­letas aquecidas no seio da família, têm por certo o fundamento da mais triste experiência; mas a sanção da regra sem o estudo e reconhecimento da causa do mal tenderia a fazer apagar as santas inspirações da caridade, e a empedernir os corações de todos os senhores de escravos.

Fora absurdo pretender que a ingratidão às vezes até profundamente perversa dos crioulos amorosamente criados por seus senhores é neles ina­ta ou condição natural da sua raça: a fonte do mal, que é mais negra do que a cor desses infelizes, é a escravidão, a consciência desse estado violen­ta e barbaramente imposto, estado lúgubre, revoltante, condição ignóbil, mãe do ódio, pústula encerradora de raiva, pantanal dos vícios mais tor­pes que degeneram, infeccionam, e tornam perverso o coração da vítima, o coração do escravo.

No amor dos senhores o crioulo estimado viu, sentiu, gozou os reflexos das flamas vivificantes, generosas, sagradas da liberdade: mas vem um dia em que ele se reconhece escravo, coisa e não homem, apesar da afeição, das condescendências, dos caridosos benefícios do senhor – amigo, da se­nhora – segunda mãe; vem a primeira hora sinistra em que ele, que até então vivera em sonhos e ilusões, desperta com a certeza horrível de que é um condenado daquém-berço; condenado sem crime; tendo alma e con­siderado simples matéria ambulante; coisa, animal, que se vende, como a casa, como o boi e como a besta; finalmente miserável e perpétuo des­terrado em deserto sem horizonte, tendo vida e não vivendo para si, dese­jando sem esperanças, não possuindo de seu nem o pleno direito dos três amores mais santos: o de filho, o de esposo, e o de pai; máquina para ca­var com a enxada, homem desnaturado, miséria respirante e movente que os próprios cães distinguem pela marca do desprezo social.

O crioulo escravo e estimado, por isso mesmo que tem mais aguçada a inteligência, e por isso mesmo que deram-lhe as mostras dos gozos e da superioridade, mas não lhe deram a condição e a educação próprias do homem livre, pesa melhor que os escravos brutais o preço e o encanto da verdadeira liberdade; no meio dos benefícios compreende que lhe falta um que vale mais do que todos os outros somados e multiplicados; feliz pelos favores que recebe, pelos dons da afeição de que é objeto, esbarra sempre diante da realidade da escravidão, que o abate, avilta e moral­mente o aniquila: deseja e não tem, quer e não pode, sonha e não realiza o bem supremo da terra, escravo se reconhece e bebe o ódio, os maus cos­tumes, o veneno, a perversidade da escravidão.

O crioulo escravo e estimado, em quem o amor e as condescendências do senhor animam e atiçam expansões naturais do amplo gozo da liberda­de, mistura nos dias da reflexão mais sombria e triste a lembrança dos sa­bores do reflexo da liberdade com a ameaça e os negros horrores da escra­vidão; habituado à impunidade garantida pela afeição, ousa muito e abu­sa ainda mais; como predileto da família, e escravo, portanto infecciona­do de todos os vícios e ferozes impulsos da madre-fera escravidão, insolen­te e malcriado, nem perfeitamente livre, nem absolutamente escravo, bom juiz odiento, pois que conhece as duas condições, e da melhor é bas­tardo, e da pior legítimo filho, o crioulo escravo e estimado de seu se­nhor, torna-se em breve tempo ingrato e muitas vezes leva a ingratidão a perversidade, porque é escravo.

Mas a sua ingratidão e a sua perversidade não se explicam pela nature­za da raça, o que seria absurdo; explicam-se pela condição de escravo, que corrompe e perverte o homem.

O crioulo amorosamente criado pela família dos senhores seria talvez o seu melhor amigo, se não fosse escravo.

Ninguém poderia ter marcado, nem o próprio Simeão seria capaz de determinar o dia em que lhe toldara as alegrias do coração inocente a pri­meira gota de fel destilado pela consciência da sua escravidão. Havia para ele na casa de seus amorosos senhores um céu e um inferno: na sala o néctar da predileção e da amizade, na cozinha o veneno da inveja e o golfão dos vícios: na cozinha a negra má e impiedosa castigou-lhe as travessuras e exigências incômodas e apadrinhadas pelos senhores, repetindo-lhe mil vezes:

— Tu és escravo como eu.

E o negro enfezado e ruim perseguia o crioulinho estimado com a ameaça lúgubre de um futuro tormentoso:

— Brinca para aí, pobre coitado! Hás de ver como é bom o chicote, quando cresceres…

E pouco a pouco Simeão abalado, incessantemente influenciado pela inveja e pelas maldades da cozinha, deixou-se tomar de um constrangi­mento leve, mas invencível, que foi o primeiro sinal da triste suspeita do abismo que o separava dos senhores.

A cozinha foi sempre adiantando a sua obra: quando conseguiram convencer, compenetrar o crioulinho da baixeza, da miséria da sua condi­ção, as escravas passaram a preparar nele o inimigo dos seus amantes pro­tetores: ensinaram-o a espiar a senhora, a mentir-lhe, a atraiçoá-la, ouvindo-lhe as conversas com o senhor para contá-las na cozinha; desmo­ralizaram-no com as torpezas da linguagem mais indecente, com os qua­dros vivos de gozos esquálidos, com o exemplo freqüente do furto e da embriaguez, e com a lição insistente do ódio concentrado aos senhores.

E a sala ajudou sem o pensar, sem o querer, a obra da cozinha.

Domingos Caetano e Angélica não destinavam Simeão para trabalha­dor de enxada, e não o fizeram aprender ofício algum, nem lhe deram ta­refa, e ocupação na fazenda: abandonando-o à quase completa ociosida­de, tolerando seus abusos com fraqueza e cega condescendência, e, o que é pior, simulando às vezes exagerada severidade esquecida logo depois, ameaçando sem realizar jamais a ameaça do castigo, dando enfim ao crioulo facilidades para o passeio, não raramente dinheiro para suas des­pesas fúteis, amando-o como filho adotivo, e conservando-o escravo, sem o querer, sem o pensar, auxiliaram as depravações da cozinha que perver­teram o vadio da fazenda.

E, maior imprudência ainda, ora Domingos, ora Angélica, cada qual por sua vez sorrindo ao pequeno Simeão, e falando aos amigos que, por favor e agrado a eles, o tratavam com prazenteiros modos, dizia sem cau­tela:

— Este não será de outro senhor.

E a promessa contida nas palavras referentes ao escravo ainda pequeno foi por muitas bocas traduzida com acerto ao escravo mais tarde jovem, por turvo juízo que encerrava esperança dependente de morte.

Diziam a Simeão:

— Feliz rapaz! Em seu testamento teu senhor te deixa forro.

E, por aborrecimento da escravidão, pelo anelo da liberdade completa, pelo encanto de chegar a ser dono de si próprio, Simeão escravo era já in­grato; porque não pensava mais que a morte de seu benfeitor fosse um su­cesso lamentável.

A venda rematou a obra começada pela cozinha e auxiliada pela sala.

Não podendo ter parte nos banquetes, nas reuniões festivas, nos diver­timentos da sociedade livre, vendo-os de longe, invejando-os, querendo arremedá-los, Simeão que pairava em uma condição média, mas artifi­cial, inconseqüente e falsa entre as flores da liberdade que não podia co­lher de todo e os espinhos da escravidão que embora não dilacerassem, es­picaçavam-lhe o coração, desceu da situação híbrida para o fundo do abis­mo: do fado da senzala da fazenda, passou depressa aos ajuntamentos da venda, e convivendo ali com os escravos mais brutais e corruptos, e com os vadios, turbulentos e viciosos das vizinhanças entregou-se a todos os de­boches, e se fez sócio ativo do jogo aladroado, da embriaguez ignóbil e da luxúria mais torpe.

Simeão foi desde então perfeito escravo.

A necessidade da alimentação dos vícios torna o vadio ladrão.

Domingos Caetano e Angélica fatigaram-se de duvidar, e cederam à evidência, reconhecendo que Simeão lhes furtava dinheiro e objetos de valor; mas em vez de castigá-lo com severidade, fracos ainda, quiseram ver no crime apenas uma extravagância da mocidade, e limitaram-se a re­preender com aspereza, e a impedir durante algumas semanas as saídas de Simeão.

A insuficiência do castigo serviu somente para irritar o crioulo que, res­sentido da privação de seus prazeres, maldisse dos senhores na cozinha, recrudescendo-lhe a raiva com as zombarias e as provocações dos par­ceiros.

A escravidão já tinha com o seu cortejo lógico e quase sempre infalível de todos os sentimentos ruins, de todas as paixões ignóbeis, estragado o crioulo que talvez houvesse nascido com felizes disposições naturais: o ódio aos senhores já estava incubado na alma do escravo; só faltava para desenvolvê-lo o calor mais forte da ação do domínio absoluto que desu­maniza o homem a ele sujeito.

Simeão acabava de contar dezenove anos e nunca houvera sofrido casti­go algum corporal. Vira por vezes o quadro repulsivo dessas punições que são indeclináveis nas fazendas, mas nem por isso menos contristadoras, e de cada vez que os vira, experimentara abalo profundo e seguido de me­lancolia que durava horas: não falava, não manifestava por palavras ou queixas o que sentia; mas dentro de si estava dizendo: “e também eu posso ser castigado assim!

Entretanto Domingos e Angélica eram senhores bons e humanos.

Um dia quase ao pôr-do-sol Florinda, que aliás protegia muito Simeão, surpreendeu-o, saindo do quarto de seus pais, e no ato de esconder um objeto no bolso.

O crioulo aproveitara a ocasião, em que Angélica e Florinda tinham ido passear à horta, para invadir o quarto do senhor, donde furtara uma corrente de ouro que dois dias antes Domingos comprara a um vendedor de jóias.

— Ainda um furto, Simeão!… – exclamou Florinda que de súbito acabava de chegar.

— E quem lhe disse que eu furtei?… – perguntou audaciosamente o crioulo.

A moça avançou um passo para o escravo e disse-lhe:

— Entrega-me o que furtaste: eu não direi nada e te perdoarei… tu és doido e queres ser desgraçado…

Em vez de obedecer sem insolência e de curvar-se agradecido diante do anjo do perdão, o crioulo recuou, dizendo em alta voz:

— É mentira! Eu não furtei.

À palavra mentira, Florinda estremeceu ferida pelo insulto.

— Atrevido! – bradou.

Uma escrava correu ao grito da senhora-moça.

— Tira do bolso desse miserável o que ele acaba de furtar!

A escrava ia cumprir a ordem; mas Simeão repeliu-a, e tirando a cor­rente do bolso, lançou-a de longe à parceira com movimento tão desastrado ou com tal propósito de ofensa, que a corrente foi cair aos pés de Florinda.

Nesse momento entravam Angélica e Domingos que chegara da roça, e tinha ainda na mão o açoite do cavalo.

— Que foi isto? – perguntou ele.

Florinda era uma santa: compadeceu-se do crioulo e calou-se; a escrava, porém, obedeceu e falou.

Ouvindo a relação do caso e do insulto feito à filha, Domingos Caeta­no, tomado de justa cólera, levantou o açoite e descarregou-o com vivaci­dade sobre as costas de Simeão.

Seis vezes e repetidamente os golpes se tinham repetido, quando Flo­rinda em pranto arrancou o açoite da mão de seu pai.

Simeão recebera as chicotadas imóvel, sem soltar um gemido, sem der­ramar uma lágrima, e sem pronunciar uma só palavra de arrependimento ou desculpa, e quando privado do açoite Domingos Caetano o ameaçava ainda, ele com os olhos turvos e como em olhar febril mediu de alto a bai­xo o senhor que tão justamente o castigara, e a senhora-moça que tão pie­dosa correra a poupá-lo a maior e bem merecida punição.

Foi nesse dia que se desenvolveu o ódio do escravo. O ingrato se tornou odiento e inimigo figadal de seus benfeitores.

Até os dezenove anos corpo virgem de castigos, Simeão vira enfim rea­lizada a sua terrível e sombria apreensão: também ele tinha provado o açoite da escravidão.

O pervertido crioulo não pesou nem por instantes as proporções do desrespeito audacioso, da injúria com que ofendera a senhora-moça, não se lembrou da reincidência do seu crime de furto, esqueceu, desprezou o generoso movimento com que Florinda o acudira, nem mesmo pareceu ter idéia da dor das chicotadas; mas a seus olhos só e incessante se mostra­va a imagem do açoite, quando atirado no ar, a cair-lhe sobre as espáduas, e a imprimir-lhe nas espáduas a marca da última abjeção.

Em falta de pundonor e de vergonha, que a escravidão não comporta, o escravo tem o rancor e o desejo da vingança.

Nas pontas do açoite está o emblema do rancor do escravo: às vezes há nas pontas do açoite marcas de sangue.

Tudo isto é repugnante, é repulsivo, é horrível; mas tudo isto se acha intimamente ligado com a escravidão, e absolutamente inseparável dela.

Onde há escravos é força que haja açoite.

Onde há açoite é força que haja ódio.

Onde há ódio é fácil haver vingança e crimes.

Simeão odiava pois seus senhores, a quem devia os cuidados zelosos de sua infância, amizade e proteção, e cegas condescendências que tanto lhe haviam suavizado a vida de escravo sem sofrimentos de escravo.

Simeão odiava o senhor, que o castigara com o açoite, odiava a senhora que nem sequer o castigara, e, inexplicável nuança ou perversão insensata do ódio, odiava mais que a todos Florinda, a senhora-moça, a santa meni­na que ofendida, insultada por ele, tão pronta lhe perdoara a ofensa, tão prestes se precipitara a livrá-lo do açoite.

O negro escravo é assim.

Se o não quereis assim, acabai com a escravidão.

Eis aí quem era, e o que era o crioulo que, trazendo o cavalo em que montava a correr à desfilada, acabava de chegar à venda.

Tinha ele virado o seu copo de aguardente, cujas gotas restantes atirara ao rosto do menino caixeiro.

Sem fazer caso da palavrosa represália do menino que se pagava da dor dos olhos tocados pela aguardente, dizendo-lhe injúrias, dirigiu-se ao grupo de jogadores do pacau e disse-lhes:

— Se vocês têm dinheiro, entro no jogo; mas há de ser jogo de arrebentar logo; porque estou apressado…

— Quanto trazes?

— Cinco mil-réis… são cinco paradas; quem topa?

Os jogadores hesitaram; dois deles, porém, fizeram sociedade contra Simeão, e travaram a batalha dos cinco mil-réis.

Os outros dois, já depenados de seus magros vinténs, ficaram a olhar.

O vendelhão e o homem barbudo que dormia, e então despertou, vieram apreciar o jogo de grossas paradas.

As cartas contrariaram a pressa de Simeão, equilibrando durante uma hora bem longa a fortuna dos contendores: por fim o crioulo, que não se deixava enganar pelos jogadores mais fraudulentos e melhores empalmadores, ganhou os cinco mil-réis aos dois associados, e não vendo dinheiro no balcão, voltou-lhes as costas.

— Que diabo de crioulo! – disse um dos jogadores infelizes. – Ou ele conhece as cartas, ou fez-se parceiro de S. Benedito nas horas do jogo. É o santo negro que ajuda os diabos negros!

Simeão pôs-se a rir e respondeu:

— Vocês não podem comigo hoje; estou em boa lua de felicidade: o velho lá ficou estirando as pernas…

— Como? – perguntou o vendelhão.

— Deu-lhe um ataque não sei de quê, dizem que é de cabeça, e deixei-o sem sentidos: é verdade! Eu não lhes disse que estava apressado?

Mandaram-me chamar o dr. Pereira.

A gente que ouvia Simeão, desatou a rir, ouvindo-o falar da pressa com que estava.

O velho da viola continuava a tocar imperturbavelmente.

— Então vai-se o Sr. Domingos Caetano? – disse o vendelhão. – Coitado! Não fazia mal a ninguém: e tu ficas forro, Simeão; era o que mais desejavas… olha, não te arrependas.

— Arrepender-me? Por quê? Tenho eu culpa do ataque de cabeça do velho? Se ele se vai, é que chegou a sua hora: boa viagem!

— Onde irás tu, forro, que aches a vida que tens tido escravo?

— Mas por que me conservou ele escravo?… O demônio que o leve, contanto que me deixe a liberdade … bem pudera também deixar-me al­gum dinheiro… tem tanto e de sobra…

— Mesmo em casa?

— Oh lá! E eu o posso dizer que perfeitamente conheço os segredos…

O vendelhão interrompeu o crioulo.

— Vocês querem ver que o Simeão fica rico?

— E como?

— O diabo do crioulo é capaz de atacar a burra do velho apenas este passar à vida eterna…

Romperam algumas gargalhadas.

Simeão não riu; mas brilharam-lhe de súbito os olhos com flama sinis­tra.

Luzira-lhe na alma uma idéia satânica.

— Tenho pressa! – exclamou ele. – Vou chamar o doutor: mais uma pinga, e corro…

E Simeão, o crioulo estimado, que em hora de desespero da família a quem tudo devia, fora mandado a chamar o médico para acudir a Domin­gos Caetano moribundo, Simeão insensível, ingrato, e cruel parara à venda, bebera aguardente, jogara o pacau uma larga hora, conversara ainda depois, ostentando a sua indiferença pelo estado crítico do senhor, pedira mais aguardente, e já meio embriagado, e ridicularizando a pressa, com que devia levar socorros ao doente em perigo de morte, montou en­fim a cavalo, e a correr seguiu o seu caminho, sem dúvida porque não ti­nha mais parceiros endinheirados, com quem jogar, ou porque alguma nova idéia e inspiração o impeliam.

Gelo de indiferença pela vida ou morte do senhor em hora suprema em que a generosidade acorda no coração mais turvado pelo ressentimen­to, ingratidão franca e desalinhada aos favores do benfeitor no dia lutuoso da agonia, em que o próprio inimigo nobre se sensibiliza, e esquece dian­te da sepultura aberta as ofensas que recebeu do que está morrendo, gelo de indiferença selvagem, ingratidão perversa que não se encontram, se­não na alma do escravo!

Porquê?…

Perguntai-o às objeções, à aniquilação de todos os sentimentos instintivamente piedosos e fraternais, que a escravidão desumanizadora do homem esquece, afoga, mata em suas ignobilíssimas misérias.

Apesar da demora cruel de Simeão, o médico ainda chegou a tempo.

Domingos Caetano estava privado da voz e dos sentidos e, em comatoso­ sono precursor da morte próxima, alvoroçava a esposa e a filha com a idéia tremenda do seu último transe. Quatro dias permaneceu ele nesse estado desesperador até que enfim seus lábios se moveram, sua boca obe­deceu ao coração que despertava para a vida, e dois nomes se lhe ouviram a custo pronunciados: “Angélica…. Florinda…”

Esses nomes mal ouvidos foram os primeiros raios duvidosos da aurora da esperança mais suave, ainda porém trêmula.

É inútil descrever as angústias e a consternação de Angélica e Florinda e a dor de seus parentes e amigos nesses quatro dias, e principalmente nessas quatro noites, em que a cada momento se afigurava o começar da agonia do velho moribundo: foram dias e noites de torturas de todos os instantes, de lágrimas e de orações que na esposa e na filha se misturavam com aqueles acessos de aflitivo desespero que Deus perdoa aos amores santos da terra.

Mas, embalde a violência da dor, o esquecimento de tudo que não era o ameaçado da morte, o pranto que enchia os olhos, o desatino da cons­ternação, Angélica e Florinda viram e não puderam esquecer mais, e to­dos admiraram a constante dedicação com que Simeão estivera sempre ao lado de seu senhor moribundo.

No meio da aflição geral, o crioulo parecia dominar-se com enérgica vontade para melhor servir, e sério, silencioso e grave, em pé a alguns pas­sos do leito de Domingos Caetano, atravessou as noites sem dormir, ten­do apenas por duas vezes cedido à fadiga, reconquistando as forças em breve sono de dia.

Simeão teria sido o enfermeiro de seu senhor, se Angélica e Florinda cedessem a alguém o cumprimento desse dever.

Mais de uma voz tinha dito e repetido:

— Excelente crioulo! Como ama a seu senhor! Há poucos assim. As aparências dissimulavam os sentimentos do escravo.

Simeão contava com a morte de Domingos Caetano, e tão inteligente como desmoralizado e corrompido, fizera suas reflexões e procedia em conseqüência.

Desde muito tempo desejava que chegasse o dia do falecimento do senhor, calculando com a verba testamentária que o deixaria liberto: esse dia chegava enfim, ele dentro de si o festejava; mas, tendo acabado de conceber criminoso projeto, convinha-lhe fingir-se compungido e triste, não afastar-se um só momento da casa.

O sarcasmo grosseiro do vendelhão que provocara as gargalhadas dos vadios reunidos na venda, lembrara ao crioulo um atentado que se lhe afigurava de fácil execução.

O escravo já não se contentava com a liberdade, queria também dinheiro.

A morte, que se demorava, impunha-lhe privação de passeios, de deboches, e da prática dos seus vícios; não lhe seria difícil escapar-se da fazenda com pretextos fúteis, ou sem eles; Simeão, porém, não queria que o senhor morresse em sua ausência; conhecendo perfeitamente os escaninhos da casa, sabia onde Domingos Caetano tinha encerradas grandes somas de dinheiro, e planejara aproveitar a desordem e as convulsões da família na hora terrível do passamento para roubar quanto pudesse.

Eis o segredo da aparente dedicação do escravo.

Simeão velava, é certo, diante do leito de seu senhor moribundo: afetava tristeza e gravidade de dor concentrada; mas seus olhos fitos no corpo de Domingos Caetano somente procuravam os sinais do progresso do mal e da aproximação da morte, que lhe prometia liberdade e riqueza roubada.

Nesse longo velar, olhando o senhor, Simeão às vezes lembrava os benefícios, as provas de amizade que recebera do velho que ia morrer; logo porém, sufocava o natural assomo de generoso sentimento, recordando o açoite que caíra sobre suas espáduas, e prelibando a liberdade que em breve devia gozar. Sem poder vencer-se, por momentos sensibilizava-se ao aspecto do corpo quase cadáver, e ao ruído abafado do soluçar da família; mas, só por momentos homem, era horas, dias e noites simples escravo, e ainda ao aspecto do corpo quase cadáver do senhor, e ao ruído abafado do soluçar da família ocultava sob a exterioridade mentirosa de compunção e tristeza, o gelo, a indiferença ingrata e os instintos perversos escravidão.

O aborrecimento que ele já votava ao senhor dormia resfriado pela morte, que presumia próxima; a morte, porém, era condição do sono do aborrecimento, e o senhor moribundo somente podia merecer do escravo o olhar fixo de vigia, insensível ao doloroso transe, esperando com aborrecido cansaço a última cena de um caso fastidioso.

Simeão foi ator nesse teatro de reais e despedaçadoras aflições, em que só ele tinha papel estudado. Os transportes de dor, em que se estorciam Angélica e Florinda, não o comoveram. Viu sem se enternecer as lágrimas que Angélica chorara de joelhos, abraçando os pés de seu marido quase agonizante, e em um momento supremo, em que a todos se afigurou derradeiro transe de Domingos Caetano, e quando Florinda nesse desespero que olvida tudo, tudo e até o pudor de donzela, quando Florinda desca­belada, delirante se lançava no leito de seu pai, e era dali arrancada por parentes, contra quem se debatia em desatino, ele, o escravo, o animal composto de gelo e ódio, ele teve olhos malvados, sacrílegos, infames que pastassem publicamente nos seios nus, nos seios virginais da donzela que se deixava em desconcerto de vestidos pelo mais sagrado desconcerto da razão.

Simeão, escravo, contando com a liberdade, e calculando com o roubo de sacos de prata e ouro, velava sinistro ao lado de seu senhor agonizante, estudando-lhe na desfiguração, na decomposição do rosto, e no arfar do peito os avanços da morte, que era o seu desejo.

E a esposa e a filha do velho que parecia agonizante, e os parentes e os amigos que tinham acudido ao anúncio do grande infortúnio, diziam, vendo Simeão vigilante e dedicado junto de seu senhor:

— Que agradecido crioulo! Há poucos assim.

Mas no entanto Simeão era mais do que nunca ingrato e perverso.

Não condeneis o crioulo; condenai a escravidão.

O crioulo pode ser bom, há de ser bom amamentado, educado, rege­nerado pela liberdade.

O escravo é necessariamente mau e inimigo de seu senhor.

A madre-fera escravidão faz perversos, e vos cerca de inimigos.

Domingos Caetano escapara àquele assalto da morte; mas, à semelhança do soldado inválido que traz na mutilação o sinal do golpe inimigo que estivera a ponto de cortar-lhe a vida, ficou marcado com a tortura da boca e com a hemiplegia quase completa.

Se não fora católico e pai de família bem pudera preferir ter morrido.

Não houve para o pobre paralítico nem a duvidosa esperança de convalescença promissora da regeneração da saúde: nos primeiros dias houve o sofrimento incessante do homem que se reconhece metade morto para o movimento e a ação, para a atividade e o trabalho, e que não tem no futuro perspectiva menos desconsoladora, do homem que sendo esposo e pai, sabe que deixou de ser apoio e que precisa apoiar-se, que não carrega mais com a família, e que é a família que passa a carregá-lo.

E passados os primeiros dias, Domingos Caetano, que notava o cuidado com que o médico auscultava-lhe por vezes o coração e ao mesmo tempo examinava-lhe o pulso, e recolhia minuciosas informações de passageiros incômodos que ele sofrera antes do terrível ataque, parecendo de muita importância a momentos de rápida mudança da cor do rosto, acompanhada de suores e resfriamento nas mãos e nos pés, aproveitou desconfiado alguns instantes em que se achou só com o médico e disse lhe:

— Doutor, devo contas ao céu e à terra e já não posso amar a vida: fale-me franco… compreende que preciso saber tudo…

O médico hesitou.

— A verdade… e depressa, enquanto elas não voltam… é pela minha alma e por elas que eu preciso saber…

Elas eram a mulher e a filha.

O doutor murmurou voltando os olhos:

— Um pai de família prudente… deve sempre estar preparado para… mas eu ainda não desespero…

— Entendo: obrigado… vê que não tremo: o que me diz é quase uma consolação: dói-me o deixá-las; mas de que lhes sirvo eu assim?…

O médico abaixou a cabeça.

— É penar e penalizá-las; antes morrer.

E depois de breve pausa o velho continuou:

— E nestes casos e na pior das hipóteses… porque enfim o doutor ainda não desespera… na pior das hipóteses a morte aproxima-se deva­gar ou chega de súbito?…

— De um e outro modo – respondeu o médico animado pela frieza com que lhe falava o mísero doente. – O seu mal é incurável, meu pobre amigo; não me compreenderia bem, se eu quisesse explicá-lo; mas há em uma de suas artérias obstáculo já muito grande e que se tornará absoluto, impedindo a circulação do sangue que é impelido do coração… nestes ca­sos a morte, que às vezes fulmina como o raio, também às vezes se prea­nuncia àqueles mesmos que não são médicos.

Com a mão não paralítica o velho apertou a do doutor.

— E se a morte não me fulminar hoje ou amanhã, como o raio fulmi­na, diga-me, meu amigo, quais são os sinais da aproximação do termo de tanto padecimento sem remédio?

O médico tomou o pulso ao doente, e achou-o batendo com perfeita regularidade.

Não havia impostura, nem estulta vaidade na resignação de Domingos Caetano.

Era este um moribundo com quem se podia tranqüila e placidamente conversar sobre a morte.

O médico olhou admirado para o velho e não respondeu.

— Mas… conversemos, doutor; conversemos, enquanto elas não che­gam.

— Já não lhe disse bastante… talvez demais?…

— Eu queria saber tudo… – ia dizendo Domingos Caetano.

Mas ouviu-se o leve ruído de mimosos passos.

Eram elas, a esposa e a filha que chegavam.

— Silêncio, doutor… – murmurou o velho.

E sorriu-se, como podia, e ainda mais com os olhos do que com os lá­bios, a Angélica e a Florinda, que entraram no quarto.

— Como está?… – perguntaram as duas a um tempo, dirigindo a palavra ao esposo e ao pai, e os olhos para o médico.

— Muito melhor – disse o esposo e pai.

O médico não pôde falar, e fez potente esforço para conter as lágrimas.

 

Fonte: www.portalsaofrancisco.com.br

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