Parnasianismo

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O Parnasianismo foi um movimento literário essencialmente poético, contemporâneo do Realismo-Naturalismo. É interessante destacar que, ao contrário de outros movimentos que ocorreram em Portugal e no Brasil, o Parnasianismo apresentou características significativas somente no Brasil e na própria França, onde teve origem.

A palavra parnasianismo vem de Parnaso, nome de um monte grego que, segundo a mitologia, era a morada de Apolo, Deus das artes. Contemporâneo do Realismo-Naturalismo, o Parnasianismo não pode ser entendido apenas como a manifestação em poesia das características realistas e naturalistas presentes na prosa.

Embora existam alguns aspectos comuns, há uma grande diferença: o Parnasianismo não se preocupava com a temática do cotidiano, com a descrição dos costumes da época e com o cientificismo, características marcantes do Realismo.

Características Parnasianas

Entre as principais características parnasianas estão:

  • Esteticismo;
  • Impassibilidade;
  • Poesia descritiva;
  • Retomada dos modelos clássicos;
  • Perfeição formal.

Esteticismo

A poesia parnasiana estava preocupada com o belo, com a parte estética, daí a palavra esteticismo. Era uma poesia descompromissada com os problemas sociais. Sua única preocupação era a arte pela arte, ou seja, a arte deveria existir em função dela mesma.

Impassibilidade

A impassibilidade é a negação do sentimentalismo exagerado presente no Romantismo. Os parnasianos negavam qualquer expressão de subjetividade em favor da objetividade temática.

Poesia descritiva

A poesia parnasiana é marcadamente descritiva, frequentemente aparecem descrições pormenorizadas de objetos e cenas da natureza.

Retomada dos modelos clássicos

O Parnasianismo, assim como fez o Classicismo, também se voltou para a antiguidade greco-romana, tida como modelo de perfeição e beleza.

Perfeição formal

A maior preocupação dos poetas parnasianos era a forma, o conteúdo ficava num segundo plano. O importante era a palavra, a aparência e a sonoridade. Tamanha era a preocupação formal que os parnasianos ficaram conhecidos como “poetas de dicionário”.

Rimas

Ao contrário da liberdade romântica, em que apareciam os versos livres e brancos, ou seja, não rimados, os parnasianos valorizaram a utilização das rimas, buscando principalmente as rimas ricas e raras.

As rimas podem ser classificadas como: Rimas Pobres, Rimas Pobres e Rimas Raras.

Rimas Pobres

As rimas pobres ocorrem quando as palavras rimadas pertencem à mesma classe gramatical:

“Entre as ruínas de um convento,

De uma coluna quebrada

Sobre os destroços, ao vento

Vive uma flor isolada”

Alberto de Oliveira

Nesta estrofe a palavra convento, do primeiro verso, rima com a palavra vento, do terceiro verso, e ambas são substantivos. Já a palavra quebrada, do segundo verso, rima com a palavra isolada, do quarto verso, e ambas são adjetivos.

Rimas Pobres

As rimas ricas ocorrem quando as palavras rimadas pertencem a classes gramaticais diferentes:

“Sonha … Porém de súbito a violento

Abalo acorda. Em torno as folhas bolem …

É o vento! E o ninho lhe arrebata o vento”.

Alberto de Oliveira

Nesta estrofe a palavra violento, do primeiro verso, é um adjetivo e rima com a palavra vento, do terceiro verso, que é um substantivo.

Rimas Raras

As rimas raras ou perfeitas ocorrem quando as palavras rimadas apresentam terminações incomuns:

“Que ouço ao longe o oráculo de Elêusis.

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,

O nosso amor conceberia um mundo

E de teu ventre nasceriam deuses.”

Raul de Leôni

Nesta estrofe o substantivo próprio Elêusis, do primeiro verso, rima com o substantivo comum deuses, do quarto verso. Mas atenção: o que importa na rima é o som e não a letra, por isso, não há nenhum problema em Elêusis com i e deuses com e.

Ao lado da utilização das rimas, os poetas parnasianos retomaram as formas fixas, principalmente o soneto, e elegeram o verso alexandrino (verso composto por 12 sílabas poéticas) como modelo de métrica.

Maiores representantes do Parnasianismo

Os três maiores representantes do Parnasianismo brasileiro são:

  • Alberto de Oliveira;
  • Raimundo Correia;
  • Olavo Bilac.

Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira é considerado o representante mais fiel do Parnasianismo, pois mostrou em sua obra uma grande preocupação com a descrição objetiva e com a forma. Seus textos são marcados por uma sintaxe bem rebuscada.

Alberto de Oliveira também foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Vários textos dele apresentam uma poesia visual, essencialmente descritiva, tendo por tema, desde cenas naturais até a pura descrição de objetos antigos. Veja um exemplo dessa poesia descritiva a partir do conhecido poema Vaso Grego:

Vaso Grego

Esta de áureos relevos, trabalhada

De divas mãos, brilhante copa, um dia,

Já de aos deuses servir como cansada,

Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que a suspendia

Então, e, ora repleta ora esvazada,

A taça amiga aos dedos seus tinia,

Toda de roxas pétalas colmada.

Depois… Mais o lavor da taça admira,

Toca-a, e do ouvido aproximando-a, à bordas

Finas hás de lhe ouvir, canora e doce.

Ignota voz, qual se da antiga lira

Fosse a encantada música das cordas,

Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

Alberto de Oliveira

Perceba que nesse poema não há subjetividade, pelo contrário, há predomínio da descrição objetiva. Há também grande quantidade de inversões sintáticas, pois segundo os parnasianos a ordem inversa dava mais requinte ao poema.

Raimundo Correia

O segundo poeta da Trindade Parnasiana é Raimundo Correia. Raimundo Correia foi acusado de plagiador, devido ao grande contato que manteve com os parnasianos franceses, mas, para alguns estudiosos, na realidade o que fazia não era um plágio, uma cópia, mas sim uma recriação dos textos em francês, imprimindo-lhes características pessoais.

Raimundo Correia destacou-se pela concisão e escolha vocabular. Fugindo um pouco das características parnasianas, construiu poemas em que a temática social e política se faziam presentes. Veja um de seus poemas:

Plena Nudez

Eu amo os gregos tipos de escultura;

Pagãs nuas no mármore entalhadas;

Não essas produções que a estufa escura

Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero em pleno esplendor, viço e frescura

Os corpos nus; as linhas onduladas

Livres: da carne exuberante e pura

Todas as saliências destacadas …

Não quero, a Vênus opulenta e bela

De luxuriantes formas, entrevê-la

Da transparente túnica através:

Quero vê-la, sem pejo, sem receios,

Os braços nus, o dorso nu, os seios

Nus … toda nua, da cabeça os pés!

Raimundo Correia

Repare que nesse texto, além da descrição Raimundo Correia também apresenta um caráter mais erótico, mais sensual. Ao contrário dos românticos, a figura feminina deixa de ser idealizada, aproximando- se mais dos relacionamentos humanos. O Parnasianismo apresenta uma visão mais carnal do amor.

Olavo Bilac

Olavo Bilac também participou da fundação da Academia Brasileira de Letras. Embora poucos saibam, ele também é o autor do nosso Hino à Bandeira.

Desde o início da sua produção, Olavo Bilac sempre se manteve fiel aos preceitos parnasianos, buscando a perfeição formal e a retomada dos ideais clássicos. Bilac também se dedicou à produção de obras didáticas, que durante muito tempo foram utilizadas nas escolas brasileiras. Veja um fragmento de seu poema mais famoso, fundamental para a compreensão dos princípios parnasianos:

Profissão de Fé

(…)

Invejo o ourives quando escrevo:

Imito o amor

Com ele, em ouro, o alto-relevo

Faz de uma flor.

Imito-o. E, pois, nem de Carrara

A pedra firo:

O alvo cristal, a pedra rara,

O ônix prefiro.

Por isso, corre, por servir-me,

Sobre o papel

A pena, como em prata firme

Corre o cinzel.

Corre; desenha, enfeita a imagem,

A idéia veste:

Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem

Azul-celeste.

Torce, aprimora, alteia, lima

A frase; e, enfim,

No verso de ouro engasta a rima,

Como um rubim.

Quero a estrofe cristalina,

Dobrada ao jeito

Do ourives, saia da oficina

Sem um defeito.

(…)

Assim, procedo. Minha pena

Segue esta norma,

Por te servir, Deusa serena,

Serena Forma!”

Olavo Bilac

Olavo Bilac nesse poema faz uma comparação entre o trabalho do poeta e o trabalho do ourives. Escrever poesia era para ele um trabalho artesanal. A rima era comparada a uma pedra preciosa, como um rubi, reafirmando assim, a ideia parnasiana de que o poeta era o artesão da palavra.

Por: Profª Edna Prado

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