Tire suas dúvidas sobre a carreira de Medicina

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Confira as orientações dadas pelo prof. Paulo Hilário Nascimento Saldiva aos alunos do Curso Etapa. A seguir, um resumo de sua palestra. Logo após, uma seção de Perguntas & Respostas.

O Prof. Paulo Hilário Nascimento Saldiva abriu sua palestra aos alunos do Etapa informando que a Faculdade de Medicina da USP, em Pinheiros, tem 16 Departamentos e é um complexo formado por uma escola e diversos hospitais: Hospital das Clínicas, Instituto do Coração, Instituto de Psiquiatria, Instituto de Pediatria, Instituto de Ortopedia, Instituto de Medicina Nuclear e outros.

Na prática, ao iniciarem o curso, os estudantes entram no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), localizado no campus da USP no Jaguaré, perto da Marginal.

Curso tem carga de 54 mil horas/aula em 120 disciplinas
Ao longo do curso, o aluno de Medicina da USP matricula-se em 120 disciplinas, com uma carga de 54 mil horas/aula.

No básico, ele cursa o geral: tem aulas de Matemática, Estatística – cálculo é necessário em Medicina – Histologia, Biologia Celular, Biologia Molecular, Biofísica, Anatomia básica.

No intermediário, passa por um conjunto de disciplinas nas quais a Patologia exerce o papel importante de transcodificar o conhecimento básico para doença. Começa a estudar mecanismos de doenças e a fisiologia alterada.

“Patologia significa ensinar mecanismos de doenças, como a célula fica doente. A Patologia e a Propedêutica – que é a arte de ensinar a examinar o doente – são as disciplinas mais importantes do que eu chamo de ciclo intermediário.”

Os alunos da faculdade, além do currículo normal, cumprem um currículo informal, onde o contato com o paciente é muito grande. Outra atividade são as bolsas de iniciação científica, que se desenvolve no laboratório, com programas, hoje nacionais, de estímulo à investigação científica.

“Formamos médicos melhores quando eles têm um estágio laboratorial e aprendem a estudar melhor”, disse o Prof. Paulo Hilário Nascimento Saldiva.

O internato são dois anos de treinamento em serviço, com rodízio por diferentes serviços do hospital, quando são aprendidos os procedimentos médicos gerais básicos.

“É esperado que ao final do 6º ano um aluno da Faculdade de Medicina possa tocar um ambulatório num centro de saúde, possa fazer alguns procedimentos cirúrgicos simples, como apendicectomia, parto, cesária, saiba tratar hipertensão, tratar diabéticos, tratar infarto do miocárdio, tratar desidratação infantil, tratar as principais doenças psiquiátricas existentes, ter uma habilidade profissional.”

Esse núcleo (de aprendizado) está cada vez mais difícil de conseguir porque o Hospital das Clínicas, com 2500 leitos, é um hospital de vocação, de especialidade. Para conseguir dar essa característica mais geral a USP criou o Hospital Universitário, com 400 leitos.

“No Hospital Universitário não tem residente, o médico é o interno, com a supervisão de um assistente. Há condição de exercer as patologias mais gerais da faculdade. Então, emergência e UTIs os alunos têm no Hospital das Clínicas, durante o curso, mas a medicina geral, o treinamento em serviço, é no Hospital Universitário.”

O Prof. Paulo Hilário Nascimento Saldiva informou que a residência dentro da Faculdade de Medicina da USP é maior do que a graduação. São 180 alunos por ano em graduação e 900 residentes por ano.

“O Hospital das Clínicas é o lugar em que todo mundo quer fazer residência. É, digamos, um funil.”

Custo anual do aluno vai de 15 mil a quase 50 mil dólares 
Como é o aprendizado médico? Há uma parte conceitual, evidentemente teórica, e uma parte prática, que é fundamental.

Medicina é uma profissão que tem muito movimento, muito envolvimento, segundo o conferencista. É uma profissão polimorfa. O curso não é um só, ele começa igual mas depois se torna um curso para cada aluno. Perto do internato há um processo de individualização.

“O ensino de Medicina começa com um professor falando para um grupo de alunos e termina no 6º ano com a instrução tutorial, quando um médico ensina ao aluno um procedimento. Ou seja, acaba no ensino individualizado. O custo disso é enorme. O custo do aluno para a faculdade está em torno de 15 mil dólares/ano, nos primeiros dois anos, e chega a quase 50 mil dólares/ano nos últimos dois anos.”

O mais importante não é ensinar, mas fazer os alunos aprenderem 
O Prof. Paulo Hilário Nascimento Saldiva considera que sua função mais importante, como professor, não é ensinar, mas fazer os alunos aprenderem.

“Na Medicina é preciso aprender a estudar por si mesmo. A evolução do conhecimento tecnológico é de tal ordem que a faculdade não consegue suprir. Então, o grande problema na Medicina, hoje, é desenvolver disciplinas que envolvam o aluno e o estimulem a procurar ativamente o conhecimento.”

Ao abordar a questão de sua escolha da profissão, lembrou que uma das preocupações era se de fato tinha vocação para ser médico.

“Será que valia a pena, será que eu ia me sentir bem? Logo descobri que essa pergunta não tem sentido. É impossível não se achar nesta profissão. Na Medicina, se quiser fazer Matemática, você consegue; se quiser fazer Física, toda a parte de exame de imagens, o planejamento de uma radioterapia, é Física; o lado mais forte da Biologia está na Medicina; se resolver fazer Humanas, a parte de Bioética, a Psiquiatria, as Ciências Sociais, a Medicina preventiva têm Sociologia, História, Política, Filosofia; se quiser ser um médico clássico, um cirurgião ou um clínico, pode; se quiser fazer clínica e cirurgia também pode, algumas especialidades permitem isso. Otorrino, por exemplo, oftalmo e dermato são hoje especialidades cirúrgicas. Então, é muito difícil não achar um lugar nesse enorme elenco de opções.”

O que distingüe um médico que ganha bem de outro que ganha mal
“De vez em quando vocês vêem a notícia alarmante de que 54% dos médicos têm três empregos e ganham em média R$ 1.200,00 por mês. Isso aparece no jornal e, aí, cada um de vocês pode dizer: ‘Tem um maluco, esquisito, de barba, que vem aqui e fala que eu tenho de estudar 12 horas por dia, vou ter um monte de gente doente, vou ser submetido nos meus plantões a mísseis orgânicos, secreções, fluidos, sangue contaminado, hepatite, AIDS; não vou dormir, vou ter um mês de férias por ano a partir do 2º ano; quando eu estiver no 5º ano vou ter 10 dias de férias; e depois da residência, talvez, muito pouco. Posso morrer de infarto, mas ele garante que de tédio eu não morro durante o curso… e vou ganhar R$ 1.200,00 por mês!’ Isso não é verdade. Há gente ganhando muito mal e tem gente ganhando dignamente para viver.”

“o que distingüe um médico que ganha bem de outro que ganha mal é a competência. Não existe profissão onde se possa enganar tão pouco quanto na Medicina. Quem for bom vai ganhar dinheiro e terá o mercado sempre aberto. Acompanhamos os alunos da nossa escola, sabemos quanto eles ganham e temos isso em gráficos. Posso garantir que os alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo não passam pelo salário de R$ 1.200,00 por mês, nem precisam ter três empregos. Eles ganham o suficiente para viver bem melhor.”

O professor ressaltou ainda que a transição para o mercado de trabalho deve ser feita de forma imperceptível.

“Vou explicar o porquê. Aquele tutor que está ensinando a operar, ensinando a examinar um paciente, é quem vai escolher o melhor para trabalhar com ele, é ele que vai apresentar o aluno para fora. O aluno que for bom na escola já é pinçado para o mercado de trabalho. Esse processo acontece naturalmente ao longo do curso.”

O conferencista prosseguiu dizendo que no mercado de trabalho, evidentemente, ocorrem mudanças, tornando algumas áreas mais competitivas e outras menos competitivas.

“Por exemplo, há cinco anos e até recentemente, Radiologia era a profissão do momento. Hoje se exige muito oftalmo, otorrino, essas especialidades clínico-cirúrgicas, mas eu prevejo para os próximos três ou quatro anos uma nova subida do que é o médico generalista, o médico de família. O que está acontecendo hoje é que se quer um médico geral que resolva melhor os problemas dos pacientes. O mercado da Medicina é muito promissor para o médico geral. Acho que a clínica geral, a pediatria geral, quer dizer, as grandes áreas médicas vão ter de novo uma remuneração mais adequada e os alunos, naturalmente, migrarão para essas áreas.”

Perguntas & Respostas
A seguir seleção de perguntas de alunos do Etapa respondidas após palestra de orientação pelo prof. Paulo Hilário Nascimento Saldiva.

Qual a diferença entre residência, especialização e estágio? 
Residência é um treinamento em serviço, vinculado a um programa nacional de residência médica. O modelo é americano e foi adotado em 1958 pelo Hospital das Clínicas. Passa por inspeção periódica da Comissão Nacional de Residência e do Ministério da Educação.

Na residência, a pessoa recebe salário e tem um vínculo de dedicação exclusiva àquele serviço. O termo residência vem do fato de que o indivíduo deve morar no hospital. No HC existe um prédio para os residentes, que hoje já é pequeno para o número de alunos que temos. O tempo da residência varia de um mínimo de três anos ao máximo de seis anos, dependendo da especialidade.

A especialização é um curso de menor duração e pode ser feito depois da residência. Geralmente, especialização está dentro das sub-especialidades da residência.

Estágios são cursos de curta duração. Quem quiser uma reciclagem em determinada área médica pode pedir o que se chama estágio de complementação especializada. Sua duração pode ser de três a quatro meses.

Há diferenças de qualidade de ensino entre as faculdades de Medicina do Estado de São Paulo? 
Sim, existem faculdades boas, médias e ruins. Nem sempre a diferença é tão grande como se pensa. Medicina Pinheiros (USP), USP-Ribeirão Preto, Unesp-Botucatu, Unicamp, são muito boas, assim como a Santa Casa, que é particular. A UNIFESP (antiga Escola Paulista de Medicina) é centro de referência nacional. Também a Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, que está sendo estadualizada, é muito boa, assim como a Faculdade de Medicina de Marília.

A escola faz uma parte inicial, mas cada curso de Medicina é vocês que vão fazer, vai ser individual.

Qual a diferença entre Medicina e Ciências Biomédicas? 
Esta é uma pergunta importante, porque muitos estudantes, com medo do vestibular da Medicina, fazem Biomédicas. A biomedicina foi uma tentativa de formar pesquisadores, mas na prática passou a formar profissionais que trabalham em laboratório de análises clínicas. Então 99% dos biomédicos estão trabalhando em laboratório de análises clínicas.
Biomédicas é um curso que não é Biologia, é uma Biologia aplicada à Medicina, você vai estar trabalhando em área de suporte de diagnóstico.

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