Apesar das novas regras do acordo ortográfico -firmado entre a comunidade de língua portuguesa em 1990 e que entra em vigor no Brasil em 2009 — simplificarem a utilização do hífen, o assunto ainda pode gerar muitas dúvidas. O maior problema, segundo especialistas, é a parte do texto que permite a exclusão do sinal em casos especiais, quando o termo já for consagrado.

O acordo diz que a palavra pode ser escrita aglutinadamente quando “se perdeu, em certa medida, a noção de composição”. Essa noção, no entanto, nem sempre corresponde à mesma nos países que utilizam o idioma. No texto do acordo é citado como exemplo “paraquedas”, que no Brasil, diferentemente de Portugal, costuma ser grafado separadamente: “pára-quedas”.

“Não concordo com isso. É um critério subjetivo, não é um critério lógico, lingüístico”, afirma Dieli Vesario Barbosa, professora de língua portuguesa e vice-reitora adjunta da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

Para o escritor e lexicógrafo (profissional que se dedica ao estudo da origem e formação das palavras) Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras, e encarregado da elaboração do Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), acredita que o caso do hífen renderá ainda um pouco mais de discussão. “Dizer que o acordo é perfeito, não é. Mais futuramente podem vir mais mudanças para corrigir um ou outro problema que a prática e o uso da língua identificarem”, diz.

Ponto de dúvida

A regra geral será a utilização do hífen na maior parte das vezes. O acordo prevê, basicamente, alguns casos em que o sinal poderá ser suprimido. A maior parte deles quando as palavras são compostas por prefixos (como “mini”, “micro”, “co” e “extra”).

A regra diz que devem ser aglutinados nos casos em que o primeiro elemento terminar em vogal e o segundo elemento começar em “r” ou “s”, dobrando-se a consoante, como em “minissaia” e “microrradiografia”. No caso em que o primeiro elemento termina em vogal e o segundo começa com uma vogal diferente, a palavra também deve ser escrita sem o hífen, como “coeducação” e “hidroelétrico”.

No caso de termos compostos de duas palavras, a tendência é continuar valendo a regra atual, segundo Godofredo de Oliveira Neto, presidente da Colip (Comissão para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa). “Quando a palavra for formada por substantivo, adjetivo, numeral ou verbo, terá hífen”, afirma.

Assim, o sinal será utilizado mesmo em palavras como “porta-retrato” e “primeiro-sargento”, apesar de as novas regras dizerem que quando o primeiro elemento termina em “r” ou “s” a consoante deva ser dobrada, como em “antissemita” e “ultrarrápido” (como passarão a ser escritas as palavras após a vigência do acordo)”.