Os chamados adjetivos eruditos foram formados tardiamente em nosso idioma, a partir dos radicais do Latim Clássico. Esse é um dos capítulos mais interessantes (e afortunados!) da história do Português; nossa língua veio do Latim em duas etapas distintas, que passo a explicar.

ADJETIVOS ERUDITOS

1 – A base do nosso léxico é formada por vocábulos latinos que, com as modificações de séculos de uso, somadas à influência dos substratos lingüísticos existentes na Península Ibérica antes da invasão romana, evoluíram até tomar a forma que hoje têm. Assim como uma brilhante moeda de cobre, recém-cunhada, vai perdendo o brilho e a efígie, e vai ficando mais fina e sem a serrilha das bordas, sob a ação do tempo e do uso, assim palavras latinas como “insula”, “pluvia” ou “hibernus” foram sofrendo também essa erosão do tempo e do uso, resultando nos vocábulos ilha, chuva e inverno, respectivamente. Esses vocábulos, por sua vez, começam a produzir derivados, já dentro dos processos habituais do Português (ilhéu, ilhado; chuveiro, chuvoso, chuvarada; invernada, invernia), e vão continuar produzindo enquanto a nossa for uma língua viva.

2 – Todos sabem que, até o Renascimento, os tratados de Ciência, de Filosofia e de Teologia só eram escritos em Latim, usando-se as línguas modernas (o Francês, o Português, o Espanhol) só para poesia, narrativas de viagens e, é óbvio, para as comunicações e os registros indispensáveis à vida quotidiana. Nos séculos XV e XVI, no entanto, começam a ser escritos os primeiros tratados em “vulgar” (assim os eruditos classificavam a língua nacional de cada país), o que trouxe duas conseqüências importantíssimas: em primeiro lugar, permitiu a todo cidadão alfabetizado o acesso a um saber que antes era privilégio dos latinistas; em segundo lugar, obrigou as línguas modernas a ampliarem consideravalmente o seu vocabulário, a fim de poder exprimir as idéias que antes só eram expressas em Latim. É o caso dos adjetivos eruditos: nossos escritores humanistas, ao formá-los, utilizaram os radicais latinos na sua forma original, criando-se os curiosos (mas enriquecedores) pares formados por uma palavra já evoluída e uma palavra reconstituída, como se pode ver nos exemplos do quadro abaixo:

LATIM FORMA EVOLUÍDA FORMA
auru ouro áureo
capillu cabelo capilar
digito dedo digital
insula ilha insular
oculu olho ocular
pater pai paterno
pluvia chuva pluvial
hibernus inverno hibernal

Voltando à nossa imagem da moeda de cobre: é como se surgisse, além daquela moeda gasta pelo tempo, outro exemplar, novinho em folha, trazido do tesouro do passado – e as duas agora passassem a circular lado a lado. Nossa dívida para com nossa mãe latina fica, assim, duplicada.

3 – Ora – e aqui é que bate o ponto! -, uma língua morta como o Latim tem seu léxico restrito à realidade que era conhecida pelos seus derradeiros falantes. Na Idade Média o Latim já era língua morta; no Renascimento, mais do que morta. Quando a América ficou conhecida – e, com ela, a lhama, a alpaca, a anta, o chocolate, o caju, a capivara e outros que tais -, o léxico latino já estava encerrado. Portanto, não pode haver adjetivo erudito relativo à lhama pelo simples fato de não existir esse radical no Latim. E cá para nós: não faz a menor falta. Um casaco de pêlo de lhama é … um casaco de pêlo de lhama.

Por: Prof. Moreno http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/