Por: Época

Mais de 140 mil candidatos disputarão as vagas oferecidas pela USP, pela Santa Casa de São Paulo e pela Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Nos bastidores da malha fina, a vice-diretora-executiva, Maria Thereza Fraga Rocco, é uma das responsáveis pelo peso elevado atribuído à prova de redação. Há mais de 20 anos os textos escritos sob pressão pelos candidatos alimentam as pesquisas de Maria Thereza, que em 1996 lecionou durante seis meses na Sorbonne, em Paris. A seguir, trechos da entrevista que concedeu a Época.

ÉPOCA – Por que é tão importante selecionar alunos que escrevam bem?

Maria Thereza F. Rocco Quem é capaz de produzir um bom texto demonstra operações mentais sofisticadas. Quando o candidato estabelece relações e utiliza um vocabulário próprio, revela maturidade para a vida, para as outras disciplinas e para o crescimento como cidadão. Nos anos 80, os estudantes que chegavam à universidade tinham grande dificuldade de escrever porque os -,vestibulares haviam abolido a redação. Os textos continham barbaridades e acreditava-se que os alunos não tinham condições de pensar. Não era nada disso. Eles pensavam e falavam muito bem, mas não dominavam o texto. Uma exigência feita no vestibular indica a necessidade de mudanças no ensino fundamental e no médio. Por isso, é tão importante atribuir um peso elevado à redação. O domínio da escrita eficiente é condição para a cidadania. A exigência da redação nos grandes exames é a salvação do Brasil.

ÉPOCA – O que os candidatos devem evitar nas provas de redação?

Maria Thereza – Os jovens acham que a banca é formada por senhores vetustos, que gostam de palavreado difícil e expressões rocambolescas. Os corretores são muito preparados e relativamente jovens. Não há, por exemplo, nenhum policiamento sobre as posições que o candidato assumir. O examinador não vai avaliar se o menino é politicamente correto ou ideologicamente bem orientado. Hoje em dia ninguém sabe o que é isso. Queremos apenas observar se ele sabe argumentar. Citações são bem-vindas, desde que sirvam de argumento para comprovar uma idéia. A citação vira uma inutilidade quando quer demonstrar erudição.

ÉPOCA – Como a senhora avalia as propostas dos presidenciáveis para o ensino superior?

Maria Thereza – A proposta de Ciro Gomes de acabar com o vestibular é um palpite infeliz. Como fazer com que tantos milhares de jovens caibam nas poucas vagas? Essa idéia é típica de quem não conhece a realidade educacional. O ideal seria que todos os interessados em cursar a universidade pudessem competir em igualdade de condições. No primeiro debate dos presidenciáveis soube da proposta de José Serra de criar cursos preparatórios para ajudar os alunos de baixa renda a competir em melhores condições. A proposta fere o próprio governo Fernando Henrique Cardoso, mas atinge a realidade. Afirmar que o ensino público não está formando os alunos como deveria é reconhecer que as mudanças não chegaram a bom termo. Lula deve ter propostas para o ensino superior, mas eu ainda não vi nada que chamasse a atenção.

ÉPOCA – Cotas para minorias ou pessoas de baixa renda poderiam amenizar a desigualdade?

Maria Thereza – Essa idéia é uma forma enganosa de tentar corrigir distorções. Cotas para negros, mulheres ou pobres criam a discriminação. Elas abrem cursos de segunda classe para cidadãos ditos de segunda classe Essa história de cotas é populismo, demagogia barata. As experiências em universidades americanas mostraram-se altamente desastrosas.

ÉPOCA – Um regime de cotas para os mais pobres é injusto com quem?

Maria Thereza – Quando se fala em falta de acesso à universidade pública ninguém pensa nos excluídos da classe média. Há uma faixa constituída por bons alunos que estudam em escolas de ponta, fazem cursos preparatórios tidos como excelentes, têm boas notas e não entram nas universidades que são objetos de desejo de todos.

ÉPOCA – Por quê?

Maria Thereza – Eles são bons alunos, mas há poucas vagas para muita gente. Esse é o ponto. Nenhum dos filhos dos seis diretores da Fuvest, incluindo os meus dois, conseguiu entrar na USP. Existe uma grande fatia da classe média que não entra nas universidades públicas. Acho que chegou a hora de também falar desse tipo de exclusão.

ÉPOCA – Os melhores profissionais saem necessariamente das universidades públicas?

Maria Thereza – Fico muito preocupada com a fixação dos alunos em ter de estudar em universidade pública. Há excelentes profissionais formados em universidades particulares. Existem faculdades privadas muito boas e outras que são arapucas, máquinas de fazer dinheiro. A exigência de qualificação das escolas fará com que elas desapareçam.

ÉPOCA – Que obras literárias a senhora acha fundamentais para o vestibular e para a vida?

Maria Thereza – Acho imprescindível ler Guimarães Rosa. Poesia também é essencial. Ler os poetas contemporâneos de língua portuguesa, Fernando Pessoa e Drummond, é fundamental. Na prosa, fico especialmente impressionada com Guimarães Rosa e Machado de Assis. Já li Dom Casmurro 28 vezes e sempre descubro coisas em que não tinha reparado antes. Para mim, Machado é uma obsessão que ensina o tempo inteiro. Crônicas de jornal também valem, a pena. São gostosas de ler e costumam ter boa qualidade literária. Adoro Danuza Leão, João Ubaldo Ribeiro e Ignácio de Loyola Brandão. Também gosto de Mário Prata, embora ele tenha elogiado Paulo Coelho, um escritor que considero menor. É importante lutar para ler. Desse embate com a palavra, que a gente sempre vence, é que vem o prazer.