O cinema não é somente um lazer para quem faz das câmeras seu instrumento de profissão

As crianças são comumente questionadas sobre o que querem ser quando crescer. Professor, médico, cantor, veterinário. As respostas variam de acordo com as influências e com a imaginação. Na adolescência é tempo de escolher a carreira que irá ser exercida ao longo da vida. Para conhecermos um pouco mais da profissão que nos leva à 7ª arte, entrevistamos a cineasta Renata Moura.

Formada primeiramente em psicologia pela Universidade de São Paulo e tendo cursado posteriormente audiovisual no curso de Realizadores do Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Audiovisual em Fortaleza/CE, Renata trabalhou em obras como Carandiru e Bróder. Na entrevista a seguir, Renata conta mais sobre o universo cinematográfico – uma das paixões de sua vida.

Quanto tempo geralmente dura a produção de um filme?
Não existe um tempo certo. O longa-metragem BRÓDER que estou lançando agora, por exemplo. Eu li o roteiro em 2000. A produção só começou em 2003. E vamos lançá-lo somente agora. Dizem que o ideal seria durar até três anos a produção de um filme, mas é muito difícil conseguir isso.

O custo com a produção é muito elevado? Quanto, na média?
O custo de tudo no cinema é muito caro. A lista de equipamentos é muito grande, por isso acaba saindo caro. Cada filme tem uma história para contar e, portanto, o seu respectivo custo. Se for feito em Estúdio, tem a locação do estúdio e a construção de todo o cenário. Se for feito em locações, tem o custo de adaptar as locações, o isolamento acústico e a provável dublagem depois. Não tem como prever o custo de produção sem ter visto o roteiro.

Como foi sua primeira experiência como cineasta?
A minha primeira experiência no meio cinematográfico foi um filme feito pela Igreja Batista em Fortaleza. A equipe era toda dos Estados Unidos e o elenco era todo brasileiro. Então eu fiz a produção, a tradução e o auxílio para a equipe entender como as coisas poderiam funcionar no Brasil.

Qual foi o seu melhor dia de trabalho?
Nossa, essa é uma pergunta difícil… Adorei receber os prêmios no Festival de Gramado neste ano. Eu estava sentada entre o Caio Blat e o diretor Jeferson De. Primeiro ganhamos os prêmios técnicos de melhor trilha e edição. Posteriormente, recebemos o prêmio de melhor ator, pelo Caio, e o de melhor diretor, pelo Jeferson De. Foi quando o último e mais esperado prêmio da noite, o de melhor filme, foi anunciado.  Quando falaram o filme BRÓDER, nós três nos levantamos e comemoramos muito! Mas eu sabia que o microfone era meu, que era eu quem tinha que fazer o agradecimento geral. Agradeci a tantas pessoas… Apesar de eu estar bem nervosa, foi muito legal.
Mas também foi maravilhoso o primeiro dia de ensaio do elenco no Rio de Janeiro. Até hoje, quando o preparador de elenco olha para mim, lembramos da emoção que senti ao ver pela primeira vez o texto do roteiro tomar vida, com toda a criatividade daquele elenco tão maravilhoso.

Qual foi seu pior dia de trabalho?
Essa também não é uma pergunta fácil… Estou pensando algum dia que sofri demais, mas não consigo lembrar. Acho que as coisas ruins vão acontecendo aos poucos. Teve um dia em que fomos para uma cidade no interior gravar umas entrevistas e choveu o dia todo. Isso foi bastante negativo, pois não podíamos adiar aquela gravação e a previsão de tempo falhou. Acabamos gravando tudo debaixo de chuva e ficou bem ruim!

Recomenda alguma faculdade?
Eu acho que todas as faculdades podem ser boas ou ruins, só depende da vontade do aluno em se envolver no que ele está estudando. Isso não é só se preocupar com os conteúdos das aulas, mas tem que fazer e curtir grupos de estudo, ir fazendo estágios e coisas assim.

Por que resolveu se tornar cineasta? Tem algum parente na área?
Eu não tenho nenhum parente na área. Por sorte ou azar, conheci um homem em um museu nos Estados Unidos que estava vindo para o Brasil fazer um filme em Fortaleza. Eu morava em São Paulo e queria mudar de cidade. Convidei-me para ajudá-lo e acabei sendo uma pessoa muito importante para essa gravação, mesmo não tendo a mesma fé religiosa que eles. Foi um trabalho bem legal e sou amiga dessa pessoa até hoje!

De onde vêm os recursos financeiros para se produzir um filme? Há ajuda do governo?
Recursos financeiros, além dos roteiros que precisam melhorar muito, são o grande problema no atual mundo cinematográfico brasileiro. Todo mundo que produz filmes está usando as Leis de Incentivo¹ (Lei do Audiovisual, Lei Rouanet etc…). É dessa maneira que o governo ajuda, além dos editais publicados anualmente, para incentivar os cineastas brasileiros.

Qual é o seu gênero favorito?
Eu gosto de dramas. Não consigo entender porque tem tanta gente que gosta de vampiros e filmes de terror, mas tudo bem! Tenho gostado também de comédia romântica. Acho interessante ter gêneros distintos e pessoas diferentes para fazer filmes diversos.

Qual é o conselho que a senhora daria a alguém que acaba de entrar na área?
O primeiro longa-metragem brasileiro que fiz foi o VILLA-LOBOS, UMA VIDA DE PAIXÃO, de Zelito Viana. Depois de quatro anos dessa produção, encontrei o Zelito no Festival de Gramado e fui agradecê-lo por ter me dado essa oportunidade. Sabe o que ele me disse? “E você ainda vem me agradecer?”. Demorei um tempo para perceber que ele estava certo. Trabalhar com cinema no Brasil significa ter uma dedicação quase exclusiva a isso. Não sei o que é férias, feriado, 13º salário… Então a melhor dica que eu posso dar a alguém que ainda não entrou na área, é para refletir se é isso mesmo que a pessoa quer. Eu tentei sair trabalhando em outra área, mas já estou dentro do cinema. Acho muito difícil sair agora.
Mas se a pessoa realmente quiser entrar, daria a mesma dica que já te dei: faça grupos de estudo, assista filmes e discuta-os e faça estágio em todas as áreas. Além de tentar entender o máximo que puder de cultural em geral.

Quanto ganha um profissional que está começando a carreira? E um mais experiente?
Depende basicamente de como e onde o profissional vai começar. Tem uma tabela do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual dos Estados de SP, PR, SC, RS, MG, MS, TO e DF, que serve de referência quando enviamos o orçamento para aprovação das Leis de Incentivo. Um roteirista, por exemplo, começa sem ganhar muito, e pode chegar a ganhar até R$ 150mil por um roteiro.

O profissional que está começando já tem condições de produzir um filme? Como são os estágios?
Eu li uma entrevista com o Fernando Meirelles, que dizia que se você quer fazer algo sozinho, não vá fazer cinema. Para fazer uma obra audiovisual você depende de várias pessoas trabalhando e acreditando naquele projeto. Então, alguém que está começando pode produzir um filme, participando da equipe. Ninguém faz um filme sozinho.
Os estágios dependem da área que a pessoa se envolver. Na direção de fotografia há um “plano de carreira” bem definido: você começa como estagiário, passa para 3º assistente de câmera, depois 2º assistente, 1º assistente, operador de câmera e aí se começa a fazer direção de fotografia.

Como se consegue patrocínio?
Existem dois tipos de patrocínio: um através de Leis de Incentivo e editais, e outro através do dinheiro de marketing. Este é sempre o melhor e o que todos querem, mas é o mais difícil. No primeiro, você inscreve seu projeto na Lei de Incentivo e depois nos editais². Ou ainda tenta conseguir alguma empresa que apóie o cinema, que dará a verba que tem condição, através das Leis de Incentivo. Para isso é bom ter ótimos contatos e muita força de vontade!

O mercado de trabalho está aberto? Como ingressar nele?
Eu tenho escutado muito isso ultimamente: que o cinema é um circuito muito fechado. Eu não conhecia ninguém quando ingressei nele. Acho estranho isso. Qualquer trabalho que você queira fazer tem que correr atrás, mesmo que todos digam que não é possível ingressar nele. Todo mercado é feito de pessoas e, o cinema é um trabalho de equipe. E todo trabalho de equipe precisa de pessoas que queiram colaborar. Faça a lição de casa: aprenda o que se pode aprender sozinho, seja lendo livros, vendo filmes ou conversando com pessoas, e acredite que é possível.

Quais são as suas inspirações na hora de fazer um filme?
Eu não cuido da parte criativa do filme, pois lido com a produção. A minha preocupação é sempre em saber se está tudo certo: onde as gravações estão acontecendo ou onde a produção está. Sempre me pergunto com muita antecedência “O que pode dar errado?”, “O que tem que ser feito para tudo acontecer de forma efetiva?”, e providencio tudo para que as filmagens aconteçam da melhor maneira possível, dentro do orçamento que temos, com as condições possíveis.

Você já ajudou a escrever algum roteiro?
Já fiz a correção de ortografia e colaboro na checagem do roteiro, verificando se há passagens repetidas. Na semana passada mesmo eu fiz isso: avisei que uma personagem estava deitando duas vezes na mesma cena no roteiro.
Pelo que conversei com roteiristas que já trabalharam comigo, algumas coisas são essenciais: ver muitos filmes, fazer muita pesquisa e estar em um ambiente que seja apropriado para escrever. Têm roteiristas que gostam de se isolar na hora de escrever o roteiro, outros gostam de ficar em casa ou no escritório. Mas o roteiro não é uma coisa fixa. Ele vai ser modificado depois das leituras, depois das críticas recebidas, depois do início dos ensaios com os atores. E o roteirista teria que poder acompanhar esse processo todo. Existem vários filmes em que o roteiro muda até na ilha de edição³.

Como é o processo de seleção dos atores e atrizes?
O processo de seleção do elenco depende do filme. Mas basicamente se pede para o ator ou a atriz reproduzirem uma cena do filme. Quando o diretor está presente, ele já percebe se há um diálogo possível com aquele profissional. Mas com os atores principais, caso sejam atores conhecidos, não há uma seleção e sim um convite para ele ou ela participarem do filme.

O diretor de um filme já tem uma equipe (que filma, ajusta as luzes, os efeitos etc) formada?
Normalmente ele já tem alguma experiência e quer trabalhar com pessoas que ele tem confiança. Caso seja um realizador que só fez curtas-metragens, em que a equipe é sempre menor, é preciso fazer entrevistas, verificar os trabalhos desenvolvidos e ver se há um diálogo possível, para assim poder aumentá-la. Para selecionar a equipe, o profissional que mais trabalha é o produtor, que analisa todos os que vão trabalhar no set. A maioria dos produtores já tem uma equipe formada, mas adaptam ao que o diretor pedir ou ao que o filme demanda.

Já teve alguma obra censurada? Ou algum filme que não deu certo?
Não tive nenhuma obra censurada, mas vi pessoas ficarem bravas com um curta-metragem que tinha sido feito por um diretor negro, onde dois atores ficam contando piadas de negros. A exibição foi numa casa de shows e ninguém sabia que o realizador era negro também. Se eles tivessem tomates nas mãos, teriam jogado na tela! Mas depois houve um bate papo com o diretor e tudo acabou bem. Já produzi filmes que não conseguiram ser exibidos como se esperava, mas a distribuição é uma questão em debate sempre!

Notas
1- Lei de Incentivo: Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei nº. 8.313/91) foi resultado do projeto submetido pelo então Secretário de Cultura do Governo do ex-presidente Collor, Sérgio Paulo Rouanet. Aprovada em dezembro de 1991, essa legislação teria como finalidade regular e controlar os incentivos culturais no Brasil, através da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), formada por representantes do governo e de entidades culturais. Fonte: http://tbproducoesaudiovisuais.blogspot.com/2007/07/as-leis-de-incentivo-ao-cinema.html
2 – Edital: Concurso público prestado, que avalia se o filme entrará na Lei de Incentivo.
3- Ilha de edição: Programa que digitaliza e edita o filme.

Por: Carolina Takahashi e Natália Rodrigues – Colégio Stockler