Conheça a Deborah que entrou em medicina na USP

Carreiras — Escrito por

Deborah Bernardo Lopes já tinha prestado Fuvest para Medicina duas vezes sem conseguir ir para a 2ª fase. Veio para o Etapa e hoje é aluna da Pinheiros, onde entrou em 21º lugar.

Aqui, sua história, com um início dramático, final feliz e um grande aprendizado: “Eu era uma pessoa pouco confiante, sempre achava que os outros eram melhores do que eu, que nunca ia chegar lá. Aqui eu aprendi que eu também posso”.

JV – Quando você escolheu Medicina como carreira?

Deborah – Quando tinha 13, 14 anos, vi minha mãetomar dois tiros, em São Bernardo. Ela tinha ido me buscar na escola, eu estava descendo as escadas e vi dois moços, eles deviam ter mais ou menos 20 anos, abordando-a no carro.

A princípio achei que era alguma brincadeira, algum conhecido que a estava puxando. Aí ouvi os tiros, minha mãe se ergueu, olhou em minha direção e caiu. Foi bem traumático, os policiais não queriam deixar levar minha mãe parao hospital porque achavam que ela já estava morta.

Um inspetor insistiu que a levassem. Ela chegou no hospital morta, mas os médicos conseguiram trazê-la de volta. Minha mãe tinha sido baleada na batata da perna e na virilha e a gente teve muita sorte porque na manhã daquele dia tinha chegado um cirurgião que fizera especialização em pernas, na França.

A cirurgia foi um sucesso, conseguiram recuperá-la e desde então eu tenho uma profunda gratidão pelos médicos. Sempre lembro daquele médico. Foi aí quecomecei a pensar em ser médica.

Você já tinha prestado Fuvest em 2010?
Me preparei em São Bernardo, mas fui muito mal na Fuvest, pior do que no 3º ano. Acho que acertei 62 na 1ª fase. Aí resolvi vir para cá.

Como conheceu o Etapa?
Sempre ouvi dizer que era muito bom.

Com que ânimo você começou o cursinho n ano passado?
Eu estava muito motivada e confiante.

Ao longo do ano, você manteve a confiança?
Teve períodos complicados. Foi muito difícil me manter sempre confiante. Mas continuei estudando.

Como foi sua adaptação no cursinho?
Foi fácil me adaptar aqui. Os professores davam o máximo apoio, os funcionários também. Achei o cursinho muito bom em todos os aspectos. Minha dificuldade foi no psicológico mesmo. Sou um pouco ansiosa.

Como você estudava?
Assistia às aulas com muita atenção. Depois que terminava a aula eu ia para casa, almoçava, geralmente dormia meia hora e estudava até 9 e meia da noite.

Estudava as matérias do dia?
Procurava priorizar as matérias em que eu tinha mais dificuldade.

Quais eram essas matérias?
Geografia e Matemática.

Como foi seu crescimento nas matérias?
Acho que cresci muito em tudo. Mesmo em Química, em que eu já tinha facilidade. O índice de erro praticamente zerou. Geografia, em que antes eu era um zero à esquerda, fez a diferença no vestibular, tive um desempenho muito bom.

Em quais matérias você ia mais ao Plantão de Dúvidas?
Ia sempre por causa de Redação. Às vezes ia em História. Muitas vezes eu não conseguia discernir se a minha resposta batia realmente com o gabarito. Ou se eu estava dizendo outra coisa.  O plantonista me ajudava bastante, apontava  onde deveria mudar, onde estava bom. E fui  muito pouco para Geografia e Matemática.

Com que frequência você treinava redação?
No primeiro semestre eu não fazia muito. Uma por mês. Era mais a do simulado. No segundo semestre tentei fazer uma por semana. E logo antes da  2ª fase eu tentava fazer a cada três dias. Mas  acabei fazendo pouco. Eu me concentrei principalmente em marcar o tempo. Apesar de escrever razoavelmente bem, eu levava muito tempo na redação. Coisa de duas horas, duas horas e meia. Fui diminuindo gradativamente o tempo, até conseguir fazer uma redação boa em uma hora.  Nas provas eu procurava sempre resolver as outras coisas rápido para ter tempo maior para Redação.

Você fez muitos simulados?
Não faltei a nenhum simulado. Eles me ajudavam a resolver as questões de forma rápida. Saber discernir entre as questões em que eu ia levar maistempo para resolver e as que eu podia resolver rápido. Aprendi a controlar meu tempo de forma asobrar sempre um pouco de tempo na prova para aumentar os meus pontos. O que acontecia muito antes era perder 10 minutos numa única questão, por princípio: “Vou resolver esta questão”. Aprendique cada questão é um ponto. Não importa se vocsabe ou não resolver uma. Às vezes vale mais a pena chutar do que passar muito tempo resolvend

Você se colocava em que faixas de notas?
Fui melhorando ao longo do ano. No começo era C menos, C mais. Depois foi indo para B. No final era difícil eu não tirar A. Principalmente em Redação.

Como você encarava o C menos?
Realmente me dava mais força para estudar. Eu viaque estava longe do que queria, que eu precisava estudar muito, que tinha um caminho longo pela frente. Sentia uma necessidade muito grande de melhorar essa nota. E foi o que aconteceu. Foi muito feliz para mim, depois, descobrir que estava melhorando, me lapidando, me aperfeiçoando.  Você fez o Reforço para Medicina, que tem simulados próprios.

Como você ia neles?
Ia mal, ia pior. Difícil o simulado do RPM em que eu tirei B ou A. A maior parte era C mais. Exceto em Redação. Geralmente A.

Você leu as obras indicadas pela Fuvest e Unicamp? Assistiu às palestras sobre elas?
Eu só não li direito a de poesia, li mais ou menos um quarto do livro. Os outros li mais de uma vez.  E fui a todas as palestras. A palestra fez o diferenciajustamente no livro do Vinicius de Moraes. Sem a palestra não teria conseguido resolver as questões da Fuvest. Lá eles focam realmente o que pode ser perguntado.

O que você fez durante as duas semanas de férias em julho?
Eu tentava estudar mais ou menos duas horas por dia. Um pouquinho mesmo. Eu estava bem estressada, bem cansada. Estudava sem me desgastar muito. Depois descansava, ficava com a família, fui viajar. E fez diferença, porque eu voltei para as aulas do segundo semestre com força total.

Para relaxar, você tinha alguma atividade?
Eu costumava correr. Corria dia sim, dia não, na praça perto de minha casa. O exercício físico renova suas energias.

A que horas você corria?
Geralmente às 5 e meia, 6 horas da tarde. Corria meia hora, 40 minutos. Jantava e voltava a estudar. Não estudava até muito tarde. Sono para mim é sagrado. Sou uma pessoa que precisa dormir. Se não durmo, não rendo. Tinha minhas oito horas de sono

Em qual vestibular você achava que tinha mais chance de entrar?
Na Unicamp. Acho que principalmente pela Redação, pelo perfil da prova, por ser uma prova que pede interpretação, raciocínio. Na USP é que eu achava que tinha menos chance de entrar. Foi uma surpresa gigantesca ter passado lá.

Qual era sua primeira opção?
Eu titubeei na hora de escolher entre Unicamp e USP. Sempre tive muita vontade de estudar na Unicamp, me encantei com a universidade. Mas, depois, pensando melhor, conclui pela USP, que é aqui do lado, minha família está toda aqui.

Quantos pontos você fez na 1ª fase da Fuvest?
71 pontos. A nota de corte de Medicina foi 70.

Como foi o período em que ficou aguardando a nota de corte para saber se iria para a  2ª fase?
Foi dificílimo. Ao mesmo tempo que eu não podia perder tempo de estudo para a 2ª fase, não sabia se valia a pena estudar, se eu realmente tinha passado. Eu pensava na nota de corte umas 30 vezes por dia. Foi um período de muita insegurança.

Quando você viu que foi para a 2ª fase, o que mudou?
Me deu um frio na barriga. Pelo meu desempenho na 1ª fase, vi como estava distante de entrar. Mas continuei com minha postura de procurar fazer

o melhor a cada dia. Fui tentando tirar o atraso
nos pontos em que eu tinha mais dificuldade.
Procurava fazer só questões escritas, tentava de
fato escrever, não elaborar a resposta na cabeça.
Melhorei muito as resoluções. Não basta você
dar a resposta certa. Você precisa colocar todos
os passos de forma ordenada. Fazer certo sem
gastar muito tempo. Mas era para a Unicamp
que eu estava fazendo tudo isso, não achava
que ia passar na Fuvest.

Para a 2ª fase, você deu prioridade a alguma matéria?
Não deixei de estudar nada, mas foquei principalmente Física. Era comum eu não conseguir fazer uma questão. Deu resultado, consegui fazer todas na Fuvest, a maior parte certa.

Quais foram suas notas na 2ª fase da Fuvest?
Na primeira prova, Português e Redação, 77,5.
Nesse dia eu fiquei nervosa, me atrapalhei bastante na Redação. No segundo dia, das questões gerais, minha nota foi 86. Nesse dia faltou um pouquinho de tempo, mas consegui resolver todas as questões. Não resolvi da  forma que gostaria de ter resolvido, mas fui bem. No terceiro dia, na prova das matérias prioritárias, minha nota foi 85, coisa assim.  Foi o dia mais tranquilo, sobrou muito tempo. Reli tudo, fiz duas vezes a prova.

Sua classificação na carreira?
21º lugar. Foi uma surpresa incrível, porque na 1ª fase tinha ficado apenas um ponto acima da nota de corte.

Como soube de sua aprovação na Fuvest?
Eu estava em casa, na frente do computador. O site travou. Uma amiga me ligou: “Você passou”. “Mas passei na Santa Casa ou na Pinheiros?”. “Espera que vou ver”. Aqueles dois minutos que ela demorou para responder pareceram duas horas. “É Pinheiros”. “Certeza? Não quero comemorar e não ser”. Demorei para acreditar. Acreditei quando consegui ver a lista. Mas, mesmo vendo, fiquei imaginando: “Já pensou se estiver errado?”. Durante uma semana entrava todo dia na internet para ver se o meu nome ainda estava lá.

O que você sentiu quando viu seu nome na lista?
Alívio, com certeza. Senti que começava nova etapa de minha vida.

Como foi seu primeiro contato com a Pinheiros?
Foi na matrícula. Foi um sonho estar na Pinheiros sabendo que eu ia estudar lá nos próximos seis anos. Logo que cheguei, encontrei duas meninas da minha sala aqui no Etapa  que também passaram. Elas chamaram um veterano que já tinham conhecido para me levar para fazer a matrícula. O momento em que assinei a matrícula foi fantástico.

Quais matérias você tem neste primeiro semestre?
Anatomia, Bioquímica, Biologia Molecular, Biologia Celular, Introdução à Medicina, Atenção Primária à Saúde e Fisiologia de Membranas.

De qual você está gostando mais?
Bioquímica, apesar de ser mais difícil. Acho mais interessante, envolve muita química e eu gosto de química.

Como é o ritmo de estudos?
Complicado. É período integral, falta tempo para estudar. Tem de ir levando do jeito que dá e antes da prova dar um gás. Antes da prova tem de se concentrar e varar madrugada.

Do que conheceu até agora na Pinheiros, o que você destaca?
Na faculdade de Medicina é incrível como as pessoas têm vontade de ensinar. Eu já acompanhei cirurgia. Os médicos ficam felizes quando a gente vai, explicam com paciência, com calma. Eles são muito solícitos, gostam da presença dos calouros. Os funcionários, todo mundo trata a gente muito bem.

Você já tem livre-acesso ao HC?
Já, a nossa carteirinha vale para qualquer coisa, desde o bandejão até sala de cirurgia. E os profissionais gostam bastante da nossa presença.

Além das aulas, você está fazendo alguma atividade?
Estou fazendo Extensão Médica Acadêmica, em que você vai atender em comunidades carentes. Estou fazendo futsal na Atlética e tutoria, que são grupos de alunos de vários anos que se reúnem para conversar, trocar ideia com o pessoal que já está na profissão há mais tempo, veteranos. Meu tutor é gastrocirurgião.

Você já tem ideia da área que pensa seguir na Medicina?
Meus pais trabalham no Hospital Psiquiátrico, eu cresci mais ou menos nesse meio, me interesso bastante por conhecer a área, a rotina. Mas tenho amente aberta para conhecer outras coisas. Meu pai é engenheiro, ele administra o hospital, e minha mãe é psicóloga.

O que vem de recordação agora que você retornou ao Etapa para esta entrevista?
Fico lembrando quanto tentei me motivar para estudar. Foi um período em que eu mudei. Era uma pessoa pouco confiante, sempre achava que os outros eram melhores do que eu, que nunca ia chegar lá. Aqui eu aprendi a ter fé em mim, a acreditar que eu também posso. É interessante voltar aqui porque você lembra o quanto lutou para entrar na faculdade de Medicina. E o quanto você tem de continuar lutando para ser um bom médico. É uma postura de vida. Aprendi a ter essa postura de ser o melhor em tudo que você vai fazer. Não só melhor em relação aos outros, melhorem relação a você mesmo.

Você tem saudade de alguma coisa de seu tempo aqui?
Com certeza. Dos professores, das aulas, gostava muito das aulas. Eu acordava de manhã feliz porque sentia que estava aprendendo, estava melhorando. As aulas são muito legais, os professores são muito solícitos. Sinto falta dos colegas também. Alguns estão comigo, outros ficaram.

Por: Jornal do ETAPA

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