Os recifes de corais são os pontos de maior concentração de vida nos oceanos. Só é possível compará-los, em termos de biodiversidade, às florestas tropicais em terra firme. Mais de 5.000 espécies de peixes, 10.000 de moluscos e uma quantidade incontável de algas e crustáceos vivem e se reproduzem em torno das estruturas delicadas e coloridas, poucos metros abaixo da superfície. Como as florestas tropicais, as concentrações de corais correm o risco de deixar de existir em prazo relativamente curto. Um megaestudo realizado por biólogos americanos, divulgado há três semanas, estima que, se nada for feito para reduzir a ação predatória do homem, os corais podem desaparecer em menos de 100 anos. Um em cada três recifes de corais está em mau estado. Há dez anos, isso ocorria com um em cada dez. A causa principal da devastação é a pesca predatória de peixes e moluscos. Ela rompe a delicada cadeia alimentar do ecossistema, e o desequilíbrio ecológico leva os corais à morte. A poluição costeira e o turismo descontrolado também contribuem para a destruição. Com a morte dos corais, as demais formas de vida somem dos recifes. “É o mesmo que pegar uma floresta e transformá-la num campo de golfe”, diz o biólogo Enric Sala, da Instituição Scripps de Oceanografia, na Califórnia, um dos autores do estudo.

O coral é um ser minúsculo – os maiores não passam de 3 centímetros – que vive em colônias nos mares quentes a pouca profundidade. A acumulação dos esqueletos calcificados de várias gerações é a base das estruturas complexas e delicadas dos recifes e atóis. Num recife de corais, a parte viva corresponde apenas à camada superficial e tem poucos centímetros de espessura. Há mais de 2 000 espécies conhecidas. Os animais mais vistosos são os chamados corais-moles, bastante coloridos, que parecem arbustos floridos ou um grande leque com ramos entrelaçados. O ecossistema criado pelos corais protege os peixes pequenos, as algas e os moluscos da força das correntes marítimas, fornece alimentos em abundância e também refúgios contra predadores maiores. Grande parte dos corais só vive em águas transparentes e quentes, com temperatura em torno dos 22 graus. Um dos responsáveis pelos estragos nos recifes é o aquecimento global, que provocou um fenômeno chamado branqueamento. Trata-se, na verdade, da perda de algas minúsculas que vivem em associação com os corais e não resistem ao aumento da temperatura.

Além de responsáveis pelo colorido exuberante de alguns corais, as algas contribuem com uma dose extra de nutrientes. Sem elas, os corais ficam brancos e, se o fenômeno for prolongado, morrem. Em 1998, uma colossal onda de branqueamento matou 16% dos corais do planeta. O fenômeno repetiu-se nos últimos dois anos na Austrália, com resultados desastrosos. É possível que esse seja um acontecimento cíclico, que se repete há milênios. A complicação é que está ocorrendo no momento em que a pressão humana sobre os corais se tornou mais intensa. No Pacífico, pescadores de peixes ornamentais jogam cianeto nos recifes para atordoar peixes ornamentais e facilitar a captura – a técnica também mata os corais. “No Brasil, atiram água sanitária nos corais para pegar polvos”, diz a geóloga Zelinda Leão, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Os corais da costa brasileira não são tão exuberantes e coloridos como os do Pacífico ou do Caribe. Mas também são um ponto de concentração de vida marinha. Apesar de ser um parque nacional, o Arquipélago de Abrolhos, onde se localiza a maior formação de corais do Brasil, não está livre das ameaças. “O volume de turistas que o visita aumentou 400% nos últimos anos”, calcula Zelinda. Barcos com mergulhadores lançam âncoras sobre os recifes, quebrando-os.

Outro problema é a poluição. Os resíduos provenientes dos esgotos e do lixo urbano de cidades como Prado, Alcobaça, Caravelas e Nova Viçosa, a mais de 60 quilômetros de distância, provocam proliferação de algas nos recifes, que competem com os corais. Situação parecida ocorre na Austrália, na Grande Barreira de Corais, uma formação com 350.000 quilômetros quadrados. Cientistas estimam que, se não houver maior controle sobre a poluição e o turismo predatório, 50% dos corais da Barreira estarão mortos até 2030. A única solução possível para preservar os corais parece ser a mais radical: a criação de zonas de proteção internacional em que o acesso humano seja controlado com rigor. Definitivamente, o homem não combina com tanta beleza marinha.

Fonte: www.escolavesper.com.br