“Aos dez anos, após perder meu bisavô, sonhava em descobrir a fórmula da imortalidade. Hoje pesquiso o aprendizado, esse estranho hábito de passar a cultura de geração para geração, uma forma que a humanidade encontrou de ser imortal.” (Paulo Blikstein.)

Nas minhas palestras para universitários gosto de abordar o tema da formação profissional sob a perspectiva do “fazer o que gosta ou gostar do que faz?”, em atenção aos que descobrem que o curso com o qual sonhavam não contempla suas expectativas.

Começo sugerindo que nem sempre a solução é abandonar o curso, narrando-lhes histórias de alunos que levaram suas empreitadas adiante e, com dedicação, realizaram-se profissionalmente. Também chamo a atenção para a seguinte premissa: quem se empenha por gostar do que faz, acaba fazendo o que gosta!

Outro dia, numa dessas palestras, tive a oportunidade de narrar a instigante trajetória acadêmica e profissional do brasileiro Paulo Blikstein. De engenheiro metalúrgico, quem diria, tornou-se autoridade mundial na área de tecnologia educacional e desenvolvimento de projetos revolucionários para a Educação Básica! Mestre pelo MIT Media Lab (polo de vanguarda mundial de pesquisa em novas tecnologias) e doutor pela Northwestern University de Chicago, Blikstein é professor dos Departamentos de Educação e de Ciência da Computação da Universidade de Stanford, além de diretor de um laboratório destinado a aplicar tecnologia educacional de ponta no ensino de ciências e matemática.

Neste ano, foi um dos vencedores do prêmio Early Career Award, da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, concedido a jovens docentes. Recebeu US$ 600 mil para tocar seu projeto, uma forma inovadora de ensinar conteúdos avançados de ciências nos níveis fundamental e médio via um sistema que combina, numa só plataforma, experimentos científicos de laboratório com a construção de modelos computacionais, em tempo real.

Blikstein formou-se em Engenharia Metalúrgica pela Politécnica da USP, um curso, vejam os leitores, cujos profissionais lidam com a transformação de minérios em metais e ligas metálicas, aplicada nas indústrias de base e do setor metal-mecânico.

Tudo porque, no final do ensino médio, não sabia em que curso se inscrever: “Gostava de ciências, eletrônica e economia. Adorava fazer vídeos e tinha inclinação para o cinema”. Conta que, a dez minutos do encerramento das inscrições na Fuvest, lembrou-se da recomendação do avô: “Na dúvida, faça o mais difícil para você”.

Optou pela Engenharia… Isso, porém, não é tudo. Durante a graduação, concluída em 1998, fez Cinema na FAAP e na Escola de Comunicação e Artes da USP. Ainda na Politécnica, fez mestrado em Engenharia Elétrica, concluído em 2000. Só depois teve a ideia de se candidatar ao concorridíssimo mestrado do MIT.

Tornou-se mestre em 2002 e, em 2008, aos 35 anos de idade, realizou uma façanha. Foi o primeiro colocado de sua área em cinco dos mais cobiçados concursos do mundo, para a docência, entre eles os concursos das universidades de Harvard, Berkeley e Stanford. Concluiu seu doutorado, no ano seguinte, em educação!!!

Encerro a impressionante história de Paulo Blikstein, reproduzindo parte de uma entrevista que concedeu após ter sido aprovado no concurso que o levou à Universidade de Stanford. Perguntado sobre como conseguiu se destacar dos concorrentes, respondeu com a humildade de um verdadeiro educador: “Estudo quinze horas por dia, há pelo menos dez anos.

Além disso, publiquei 25 artigos em revistas científicas, o que foi decisivo. Mas, também, investi muito tempo durante o processo de seleção. Ensaiei dois meses em frente a plateias de amigos para preparar o que diria aos avaliadores. Não sou um gênio. Só trabalhei duro”. (Em tempo: a Folha de S. Paulo trouxe um artigo seu, no último dia 25.)

Por: EURÍPIDES ALVES DA SILVA – Mestre e doutor em Matemática pela USP e aposentado pelo Ibilce/Unesp retiraodo do Diário Web