Leia as redações nota 10 produzidas pelos alunos do Criar.

De 1400 a Aldous Huxley Há cerca de 600 anos, um movimento artístico difundiu-se pela Europa. Tal movimento substituía as diversas crenças pelo empirismo e o puro racionalismo. Com base nessa nova característica, surgiu o cientificismo e, a partir deste ponto, homem e ciência caminhariam sempre juntos.

Raras vezes olhamos a nossa volta e não nos deparamos com algum tipo de tecnologia. Gosto da idéia de imaginar o que veria se possuísse algum tipo de visão especial. Se olhasse para uma caneta, observaria as várias ligações entre os átomos e, a seguir, a composição de uma certa substância necessária à escrita; isso é química. Observando um celular, veria como é perfeita a transferência de sinais eletromagnéticos e de sua interação com o sistema; isso é física. E se olhasse para uma construção, conseguiria enxergar as diversas equações estabelecidas para tal monumento se manter estável; isso é matemática.

O ser humano atingiu uma complexidade tecnológica que lhe proporciona conforto e interatividade, o que facilita a resolução de problemas e a locomoção. Impor limites ao progresso científico é estacionar no tempo. Controle e restrições existem em todos os lugares, mas, com o passar dos anos, regras são alteradas e, desta maneira, com passos curtos, a ciência tem liberdade e avança.

No livro “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley, temos a situação de um futuro no qual o domínio das técnicas e do saber científico produz uma sociedade totalitária e desumanizada, dividida em castas, cada qual com responsabilidades e trabalhos diferentes. O interessante é que não existe contestação quanto a tais obrigações, já que os membros da casta superior são responsáveis pelos embriões – que não se desenvolvem no útero da mãe, e sim em bocais – e os condicionam física e psicologicamente, adaptando-os ao tipo de vida que trará benefícios à sociedade.

A questão é: até que ponto o avanço tecnológico pode ser considerado imoral? O resultado que tais avanços podem obter no futuro não é algo utópico. O progresso não pode ser freado, porém deve ser controlado de forma consciente. Há 600 anos, o movimento artístico do Renascimento trouxe idéias inovadoras e influenciou a necessidade do conhecimento pela razão. Hoje, devemos nos conscientizar de que a ciência e a revolução tecnológica são fortes movimentos, mas que não podem superar a razão humana, como superou no livro de Huxley.

Guilherme Sabbag Stersa – Criar Araraquara

***

Realidade onírica O mundo dos contos de fadas é caracterizado como algo perfeito, “cor-de-rosa”. Crianças de todas as nações sonham viver nesse reino de fantasia e mágica, onde tudo é possível, onde não há limites para a imaginação. Meninas são princesas, e meninos são heróis. Para eles, o mundo é uma quimera.

Todavia, essa ilusão não dura para sempre. As crianças crescem e abandonam seus sonhos, ideais e fantasias que se encontram guardados nos baús da inocência. Esses sentimentos são substituídos pelo pessimismo, alienação e ceticismo. As pessoas acostumam-se com o mundo em que vivem e ficam com as bocas abertas esperando alimento. Ficam esperando porque sabem que ele virá; não é necessário esforço.

Essa acomodação está se tornando cada vez mais intensa devido a um problema maior. Inúmeros políticos utilizam o poder em benefício próprio através de infindáveis campanhas assistencialistas (mais uma versão do “Pão e Circo”, talvez?). Assim como Bentinho deu esmola a um mendigo para ter seus desejos atendidos, nossos dirigentes também fazem a política de troca de favores. Ao invés do mendigo, o povo e, no lugar de vinténs, Bolsa-família, auxílio gás, Fome Zero…

No meio desse conformismo coletivo, surgem pequenos brotos de lucidez. Pessoas que querem sair desse ambiente fétido no qual a sociedade encontra-se imersa. Com esse objetivo, ONGs e campanhas sociais são criadas e pouco a pouco surgem os resultados. Esses indivíduos são flores que rompem o asfalto, mas que, infelizmente, ainda são minoria.

Ao alcançar suas metas, os idealizadores transformam-se em heróis e o universo infantil é resgatado. A esperança de que é possível viver em um mundo melhor reacende. Embora ainda pisque fraca, não pode ser ignorada. Ela deve continuar sendo alimentada para que, talvez, em um futuro distante, a raça humana possa ter um final feliz.
Júlia Wicher Marin – Criar Araraquara

***

Solidão é ponto de vista A sociedade contemporânea é sempre indagada no que tange seu comportamento e interação com o meio. Novos sistemas de produção, na história, exigiriam novas personalidades do homem, o atual á individualista, competitivo e hedônico, entretanto não necessariamente só. A solidão é um estado de espírito, oposto do negativismo a ela atrelado.

Os valores mudam. Em gerações passadas e em algumas cidades interioranas é perceptível os laços afetivos entre os habitantes, todos se conhecem, se cumprimentam, sentam nas calçadas com o fim da tarde. Contrariamente, o individualismo do século XXI é fruto de um mercado exigente somado à ambição de estabilidade e conforto mais o medo da violência e criminalidade exorbitantes logo dedicar-se à leitura, música, culinária, ao trabalho ou estudo não são meros escapes de responsabilidades e sim satisfação àqueles que optam por esses e outros quesitos para ocupar o tempo.

Já a competição é a arma do capitalismo que oculta a arte de aprimorar, aumenta a qualidade e a quantidade do profissional buscado, lei da oferta e da procura. Isso não implica numa sociedade de amigos, familiares, cônjuges, filhos com quem dividimos momentos, às vezes curtos, de prazer. É verdade, ninguém nasce para o outro, porém outros se juntam para alguém nascer. A cumplicidade e o afeto tornam-se parte do homem e não o seu fim.

No hedonismo, como característica geral é pretensão, todos desfrutam de momentos, nem sempre sozinhos. Aproveitar e gozar é o significado de realização, ora é conjunta, porquanto compartilhada, ora pessoal, desfrutada pelo ego. Hoje a média vende muito a imagem de felicidade idealizada, o que nos toma eternamente frustrados e esquecidos de valorizar as próprias conquistas.

Com isso, é necessário valorizar o que se conquista, sejam bens materiais ou afetivos. A vida é cheia de empecilhos e a forma como a enfrentamos define o estado de espírito e a própria situação na sociedade. Olhar para a vida engrandecendo-a garante estado de satisfação plena, longe da solidão, compartilha-la e como gasta-la é opção.
Ligia Maria Monzoli Torres – Criar Campinas

***

Seleção ou limitação? A porta de entrada para as melhores universidades do país é bastante estreita e nada democrática. Mas, apesar de todo o folclore acerca do vestibular, este velho temido dos adolescentes não passa de uma prova.

E é justamente isso que o torna tão aterrorizante. Provas medem desempenho. Não medem festas abdicadas, noites em claro, dificuldades superadas férias sacrificadas, nível de stress, horas de dedicação, nem muito menos,a paixão, a vocação e a ambição que nos debruçam sobre elas.

Como todo vestibulando sabe, processos de seleção são extremamente relevantes, que o diga Darwin e a própria natureza. Porém, o que determinam as características dos indivíduos selecionados são as condições adversas impostas pelo meio. Visto que não há vagas para todos, os vestibulares são imprescindíveis e, teoricamente, uma maneira de se elevar o nível dos alunos das universidades brasileiras. Mas, será que isso de fato acontece?

A prova da FUVEST seleciona os candidatos que acertarem o maior número das suas 90 questões teste. Dessa forma, a melhor universidade do país limita o perfil de seus alunos a bons memorizadores de fórmulas e nomenclaturas que raramente terão alguma aplicação dentro da própria USP.

Não é por acaso o baixíssimo número de patentes brasileiras. O vestibular não privilegia a inteligência nem a criatividade. Não valoriza o esforço, a dedicação, a perseverança. Muito pelo contrário, muitas vezes permite que o difamado “jeitinho brasileiro” ainda leve vantagem.

Essas portas determinam não só quem ingressa no ensino superior, mas, fundamentalmente, o tipo de profissional e cidadão que será formado dentro delas. Enquanto persistirmos em vestibulares antiquados, não evoluiremos como sociedade e continuaremos a desperdiçar a elite intelectual do nosso país.

Stephanie Kílares Gallani – Criar Campinas

***

Um jogo de escolhas Ao decorrer dos séculos a população mundial experimentou um crescimento demográfico que gerou a necessidade de mudanças em diversos setores, principalmente no político e no econômico. A maior ocorreu devido à Revolução Industrial – que proporcionou um grande aumento na produção em massa – e consolidar as bases do capitalismo. Com esse sistema, apareceu a publicidade que, ao se desenvolver, trouxe-nos uma extrema padronização e conseqüente perda de autenticidade.

O capitalismo, associado à publicidade, fez com que a aparência se tornasse muito mais importante do que a individualidade de cada um. Assim, passamos a pertencer a uma realidade em que buscamos seguir os padrões ditados pela publicidade, logo, somos todos iguais. Antes, um indivíduo era diferente de outro por seus pensamentos e opiniões, no entanto, hoje, a política visa a promover uma alienação que nos massifica e faz com que vistamos, pensamos e falemos da mesma maneira. Assim, somos marionetes do capitalismo.

É claro que há aqueles que se sobressaem e, portanto, tendem a ser mais autênticos. Contudo, isso só ocorre devido à pessoa ser destaque em determinado aspecto e torna-se assim, um símbolo. Mesmo quando alguém é famoso e torna-se influência ao invés de influenciado, ainda há deslocamento de identidade. Ao ser uma celebridade, uma pessoa traz com sua imagem a idéia que a fez ser conhecida, não quem ela é de fato. Marilyn Monroe é um dos exemplos. Poucos realmente conheceram-na, portanto, para a maioria, ela era apenas um símbolo sexual.

A sociedade contemporânea prega e pratica a liberdade de escolha e a diversidade, porém estamos inscritos em um ciclo em que qualquer escolha nos leva ao mesmo lugar. Podemos escolher entre sermos “certinhos” ou “punks” que, na prática, ainda estaremos nos moldando pelas formas capitalistas para passarmos uma imagem generalizada e superficial daquilo que somos para a sociedade.

Na prática, todos somos peças de um jogo. Peças iguais, que se divertem ao escolher x ou y, pensando que isso traz uma grande diferença. É fato que temos mais liberdade do que no passado, mas ainda assim, a massa continua sendo controlada pela média e alienada. Portanto, jogamos o jogo do capitalismo, consumismo, trabalho e perda de diferenciais.

Yumi Tagawa – Criar Campinas

***

Nossos bosques têm mais vida? A influência estadunidense sobre o Brasil é presente na História e perdura até os dias de hoje. Mais do que ideologicamente, os EUA se infiltraram no vocabulário de nosso país de maneira determinante, o que levou o Deputado Aldo Rebelo a propor que hajam sansões contra o uso excessivo de palavras vindas de outro idioma. Estrangeirismos são importantes e até necessários, contudo, os brasileiros têm exagerado no seu uso, o que pode levar boa parte da população à exclusão social, e, mesmo que iniciativas como a do Deputado não cortem o mal pela raiz, elas, indubitavelmente, freariam ou até diminuiriam o uso de tais palavras.

O uso de estrangeirismos pode ser positivo para uma nação. Ao longo do tempo, precisamos criar novas palavras, nomear novas atitudes de objetos, e as palavras de outras línguas podem contribuir muito nisso. Além disso, seus usuários ficam mais abertos às demais culturas, assim, elimina-se a xenofobia e intolerância – problemas que atualmente perturbam a Europa Ocidental. No entanto, tal necessidade somada à dominação ideológica estadunidense criou uma apologia do uso do inglês que, se abusiva, pode ser prejudicial.

Se andarmos pelas ruas ou por um “shopping” observando as lojas, seus nomes e suas vitrines, bem como atentando ao nosso vocabulário, o uso de palavras do inglês será novamente gritante. É comum que as lojas expressem uma promoção por “sale” ou “50% off”, tragam frases estampadas em roupas ou tenham nomes em inglês. O uso de estrangeirismos vai muito além dos “shoppings” ou centros de compras e, para um país com considerável porcentagem de analfabetos, é extremamente incoerente a existência de uma população praticamente bilíngüe. Rebelo não foi o primeiro e provavelmente nem será o último a tentar tornar o brasileiro mais patriota. Movimentos como a Semana de Arte Moderna tinham o mesmo intuito, mas sem o Poder Legislativo ao seu lado.

A Semana de 22 pode não ter atingido seus objetivos inteiramente, mas certamente contribuiu para a criação da identidade brasileira. E, dessa maneira, mesmo que a proposta do Deputado não seja uma medida sustentável e não elimine o domínio que sofremos dos norte-americanos, a substituição de nomes estrangeiros estampados em placas pelas ruas já seria um grande desestímulo equilibrado ao uso de estrangeirismos, que jamais desapareceria, de qualquer maneira.

Yumi Tagawa – Criar Campinas

***

Poesia camoniana As atrocidades que estampam nossos jornais não me fazem refletir sobre a violência. Elas colocam em xeque um conceito universal: a felicidade. O famoso clichê de que todos nós vivemos em busca desse sentimento perene, que nos traz a paz, parece-me tão frágil quanto o que vejo na TV: famílias que se destroem em uma janela.

Afinal, a felicidade não é marcada pelo amor recíproco dos seres humanos? As pessoas se escravizam para conquistar um belo corpo, batalham para adquirir um bom “status” na sociedade, para se sentirem mais dignas da aceitação dos outros. Eu sou assim, e quem não é? A nossa luta incessante pelo bem-estar remete a um pseudo alcance da felicidade.

Quando um pai tira a vida de um filho, ou então um político age de forma antiética com seus eleitores, eles estão direcionados contra essa reciprocidade. Logo, a felicidade estaria na individualidade e no egoísmo. Essas pessoas que agem de forma maquiavélica (na qual os fins justificam os meios) buscam uma vida sem problemas, mesmo que, para não tê-los, seja necessária a quebra dessa coerção social. Os valores como a riqueza e o poder estão cada vez mais fortes.

O dinheiro é necessário, pois sem ele é impossível sobreviver no meio capitalista. E a ambição é saudável, porque crescemos quando colocamos metas a serem cumpridas. Porém, esses fatores não estão nem perto de uma fórmula da felicidade. Para mim, essa conduta tem como resposta o prazer. Porque nós somos, alguns mascarados e outros escalafobéticos, todos bipolares e nos alternamos em momentos de prazer e sofrimento.

O padrão exposto da felicidade (com o consumo, o sucesso e a estrutura social) é uma prisão invisível. A cada nova “meta” alcançada, existe uma mudança do padrão. Sentimos um prazer que logo se torna frustração. É um contentamento descontente. Então, a felicidade plena não é alcançada e o sofrimento se sobrepõe. Agora, ou eu me contento com esse círculo vicioso, ou compro logo um livro de auto-ajuda.

Alice Gadotti Yasuda – Criar Franca

***

Novas máquinas O vestibular não é apenas uma conseqüência do comprometimento com o aprendizado, mas a seleção dos que vivem em função dele. Estudantes têm suas vidas fixadas em quadros, e cada minuto é calculado para o maior aproveitamento do estudo. Por que encaixotamos o conhecimento e submetemos jovens a doses diárias de informações as quais, possivelmente, não serão utilizadas posteriormente?

Com exceção dos profissionais da área de genética e educação, em biologia, que outros com mais de cinco anos de atividade sabem os nomes das fases da meiose? Segundo Rubem Alves, os próprios professores das universidades dificilmente passariam nos cursos nos quais lecionam. A memorização de dados e fatos só tem sentido se houver aplicação.

A situação atual reflete a ideologia capitalista e surge no século XIX com o Fordismo. A necessidade de operadores de máquinas que trabalhem no tempo exato transforma escolas em centros de treinamento. As carteiras enfileiradas lembram a disposição das linhas de produção. Como nas fábricas, o sinal condiciona tanto o horário estabelecido pelas tabelas como o ritmo de trabalho.

No entanto, o contexto histórico forja novos conceitos e tendências. Na sociedade hodierna, o conhecimento decorado é facilmente adquirido com uma pesquisa rápida no computador. É inacreditável como, na era da informação, ainda são valorizados bancos de dados humanos. Não há seleção dos melhores dessa maneira, apenas dos mais mecânicos.

Se, ao estudarmos conforme a tabela milimetricamente elaborada sobre a parede do quarto, não entendermos a essência do que seria organização, de nada adianta. Quando cessarmos a procura pela máquina perfeita, encontraremos um resquício da essência da imperfeição: o raciocínio humano.

Débora Gambetta Paim – Criar Franca

***