Por: Revista Época e Curso Criar

A) Do professor PASQUALE CIPRO NETO:

ÉPOCA: Como é o desempenho dos alunos de cursinho em redação?

PASQUALE: É difícil traçar um padrão. Escrever bem é conseqüência de pensar bem. Muitos alunos são pouco críticos e ficam preocupados em empolar a linguagem. A outros falta senso de abstração, o que também é importante.

ÉPOCA: Que conselhos o senhor dá a quem vai prestar vestibular?

PASQUALE: Ninguém aprende nada da noite para o dia. Como disse Carlos Drummond de Andrade, amar se aprende amando. Da mesma forma, escrever se aprende escrevendo. Ninguém vai receber uma iluminação no dia da prova.

ÉPOCA: Quem gosta de ler escreve bem?

PASQUALE: A leitura é necessária, mas não suficiente. Para escrever bem é preciso raciocínio lógico e contato com a língua padrão. O candidato deve estar atento à estrutura do texto e à correção gramatical. Um texto bem amarrado, mas com a língua descuidada, receberá uma avaliação negativa.

B)      Do professor JOSÉ ATÍLIO VANIN (Presidente da FUVEST):

1.        A REDAÇÃO não pode fugir ao tema proposto. O conteúdo do texto precisa ter relação direta com o tema. Pode parecer uma regra óbvia, mas nem sempre ela é seguida.

2.        É avaliada a capacidade do aluno de organizar os argumentos que fundamentarão as conclusões do texto. No caso de um texto narrativo, leva-se em conta a habilidade do autor na construção de personagens.

3.        O uso da língua na forma como ela é escrita. Ou seja, é uma armadilha para o aluno o emprego de termos coloquiais, utilizados na fala e não em textos. Expressões coloquiais só são aceitas na reprodução de diálogos. Isso não significa que o texto tenha de ser empolado, de difícil entendimento.

4.        A utilização correta dos recursos da língua. Em outras palavras, evitar erros gramaticais.

C)      Da professora MARIA THEREZA FRAGA ROCCO (Vice-diretora da FUVEST):

EPOCA – Por que é tão importante selecionar alunos que escrevam bem?

MARIA THEREZA ROCCO – Quem é capaz de produzir um bom texto demonstra operações mentais sofisticadas. Quando o candidato estabelece relações e utiliza um vocabulário próprio, revela maturidade para a vida, para as outras disciplinas e para o crescimento como cidadão.

EPOCA –  O que os candidatos devem evitar nas provas de redação?

MARIA THEREZA ROCCO – Os jovens acham que a banca examinadora é formada por senhores vetustos, que gostam de palavreado difícil e expressões rocambolescas. Os corretores são muito preparados e relativamente jovens. Não há, por exemplo, nenhum policiamento sobre as posições que o candidato assumir. O examinador não vai avaliar se o menino é politicamente correto  ou ideologicamente bem preparado. Hoje em dia ninguém sabe realmente o que é isso. Queremos apenas observar se ele sabe argumentar. Citações são bem vindas, desde que sirvam de argumento para comprovar uma idéia. A citação vira uma inutilidade quando quer demonstrar erudição.

VÃO AÍ ALGUNS TRECHOS DE REDAÇÕES DE 1999 COMENTADOS PELA BANCA DA FUVEST:

TEMA:

Como você avalia a jovem geração brasileira que constitui a maioria dos que chegam ao vestibular? Situada, em sua maior parte, na faixa etária que vai dos dezesseis aos vinte e um anos, que características essa geração apresenta? Que opinião você tem sobre tais características?

Para tratar desse tema, você poderá, por exemplo, identificar as principais virtudes ou os defeitos que eventualmente essa jovem geração apresente; indicar quais são os valores que, de fato, ela julga mais importantes e opinar sobre eles. Você poderá, também, considerá-la quanto à formação intelectual, identificando, aí, os pontos fortes e as possíveis deficiências. Poderá, ainda, observar qual é o grau de respeito pelo outro, de consciência social, de companheirismo, de solidariedade efetiva, de conformismo ou de inconformismo que essa geração manifesta.

Refletindo sobre aspectos como os acima sugeridos, escolhendo entre eles os que você julgue mais pertinentes ou, caso ache necessário, levantando outros aspectos que você considere mais relevantes para tratar do tema proposto, redija uma DISSERTAÇÃO EM PROSA, apresentando argumentos que dêem consistência e objetividade ao seu ponto de vista.

TRECHOS:

1.“O Brasil hoje não é europeu, africano, asiático, indígena. Nós somos a mistura exata de tudo isso, completamente diferente das nossas origens, únicos. E, apesar disso, estamos indiscutivelmente atrelados aos princípios da nossa matriz. Talvez o ano 2000 possa servir para abrirmos os olhos e, em vez de comemorarmos os nossos cinco séculos coloniais, enterramos o que sobrou deles”.

COMENTÁRIO:

Uma redação maravilhosa, escrita com muita consciência e ironia. Mostra um conhecimento profundo de nossa História, dá argumentos e contra-argumentos”.

2.“Eu mesmo, que estou fazendo um exame difícil, não posso me esquecer de que há muitos candidatos que tiveram suas chances de aprovação reduzidas ao mínimo. Devemos, de alguma maneira, tentar ajudar esses que não obtiveram o sucesso desejado, para que não percamos a humanidade que nos resta”.

COMENTÁRIO:

Aqui o autor está mais solto. Ele expõe o que pensa, no lugar de divagar sobre algo complexo que nem sempre sabe fundamentar.

3. Somos (e eu, a partir de agora, por solidariedade e cumplicidade, incluo-me no paredão da artilharia) uma geração acomodada, pouco consciente, desconfiada e ingênua. Somos, enfim, tomados ora pela alienação, ora por uma indignação passiva, uma permissividade quase incompreensível que nos leva a DIZER sem FAZER. Somos alienados quando assistimos, boquiabertos e atônitos, a uma globalização que não compreendemos. A indignação passiva aparece, por sua vez, quando, conscientes de que a corrupção existe, criticamo-na mas abstemo-nos do voto.

COMENTÁRIO:

Excelente texto, mas excessivamente rígido na autocrítica que o autor faz sobre si mesmo. A repetição do vocábulo ‘somos’ é muito bem usada para enfatizar sua opinião.

4.“Mas não podemos deixar de fazer ressalvas. A maioria dos brasileiros quer ajudar a transformar nosso país. Em meio a tantos mitos e verdades perde-se a noção de caminho a seguir”.

COMENTÁRIO:

“Este trecho é o trecho mais personalizado da redação. Sempre que o aluno fica mais à vontade, a tendência é de que escreva melhor”.

REDAÇAO NOTA 10 SELECIONADA PELA BANCA EXAMINADORA:

TEMA FUVEST 2002:

Como você avalia os responsáveis por sua formação, ou seja, seus pais e familiares, professores, orientadores religiosos, líderes políticos, intelectuais, autoridades etc.?

Visando ao desenvolvimento do tema, você poderá, se quiser, refletir sobre as seguintes questões:quais foram os principais responsáveis por sua formação? Quais são as características mais marcantes que apresentam? Você julga que eles assumiram, de fato, sua função de formadores? Em que aspectos a formação que lhe proporcionaram foi satisfatória ou insatisfatória? Você poderá, ainda, identificar os valores que são realmente importantes para eles, opinando sobre esses valores. Poderá, também, considerar se eles são, em si mesmos, pessoas íntegras e felizes e se, assim, constituem bons modelos de vida.

Considerando aspectos como os acima sugeridos ou, ainda, escolhendo outros que você julgue mais importantes para tratar do tema, redija, com sinceridade e plena liberdade de opinião, uma DISSERTAÇÃO EM PROSA, em linguagem adequada à situação, procurando argumentar com pertinência e coerência.

Brejeirinha e os Cubas

A literatura é rica fonte de exemplos de jovens e seus formadores. Em Memórias Póstumas, Brás Cubas é o reflexo de sua formação. Sua mãe, fraca e ausente, e seu pai conivente criaram um filho sem caráter. Já em Primeiras Estórias, Brejeirinha é o oposto do menino Brás. A menina era esperta e gostava de inventar ‘estórias’. Claramente influência da família. A mãe, uma fada, está sempre presente.

Como na literatura, a atual geração de jovens é o espelho de seus formadores. Somos o que nossos pais e sociedade nos ensinaram. Desde o nascimento, ou mesmo antes, enquanto fetos, ouvimos o mundo e assimilamos. Ao longo do crescimento, as influências tornaram-se mais diretas. Os pais, sempre atentos, devem competir com o lado negativo da sociedade. A televisão, as ruas e até mesmo a escola, podem ser como os pais de Brás Cubas, suas influências podem criar uma geração alienada, inconseqüente.

Brás Cubas chicoteia Prudêncio e recebe presentes do pai. Muitos dos responsáveis pela formação dos jovens também acariciam nossas cabeças. Grande parte dos personagens de tevê desconhece seu poder sobre os espectadores mirins e chicoteiam sua educação com programas nada educativos. Ao atingirmos a adolescência, passamos a entender melhor o mundo e ouvimos os líderes políticos. Promessas de educação e saúde não são cumpridas e assimilamos a mentira, a falsidade e a manipulação. Muitos jovens utilizam esses valores contra os próprios pais.

Apesar de uma sociedade rica em influências negativas, há também fadas, como a mãe de Brejeirinha. Elas apontam o caminho correto e aparam nossa cabeça em momentos difíceis. Essas fadas são nossos pais, familiares e professores. Os que são os primeiros e mais importantes formadores. Sua integridade e valores são o alicerce para um ser humano justo. Os laços que reforçam a integridade da formação vêm de nossos familiares e professores. Todas essas ‘fadas’ lutam para formar, no muno real, pessoas como Brejeirinha.

A geração de meus formadores viveu momentos importantes da história e aprendeu os valores que ensina hoje. Alguns seguiram o caminho dos Cubas e muitas vezes estragam as recém-criadas Brejeirinhas, transformando-as em Brás Cubas. Outros se tornaram ‘fadas roseanas’ e lutam com bravura para impor seus valores aos jovens. São valores justos e dignos. Felizmente, as ‘fadas’ estão vencendo essa batalha.  (Vitor Pinho – aluno Criar, aprovado em 1º. de medicina da USP 2002 – redação selecionada pela banca da FUVEST como a melhor de 2002)

COMENTÁRIO:

DE ACORDO COM OS COMENTÁRIOS FEITOS NESSA LIÇÃO, ESSA REDAÇÃO É AUTORAL POIS POSSUI:

a)       RELAÇÃO DE IDÉIAS – o texto relaciona o comportamento da juventude a passagens específicas do hino nacional.

b)       ESPONTANEIDADE – o autor usa a primeira pessoa em vários momentos do texto e por isso dá vazão às emoções.

c)       ESTRUTURA DO TEXTO – os parágrafos são mais ou menos do mesmo tamanho e não períodos muito longos.

d)       VOCABULÁRIO – o autor trabalha bem o vocabulário e não usa palavras rebuscadas e nem é redundante.

e)       LINHA DE RACIOCÍNIO – começa com a escolha da SÍNTESE como estratégia e o desmembramento da síntese por analogia, isto é, relacionando cada situação ligada à juventude a cada passagem do hino nacional.

f)         COESÃO TEXTUAL – bom uso das conjunções e expressões que ligam tanto as orações quanto os parágrafos.

OBSERVAÇÕES:

1. Usando os recursos acima discutidos, os alunos do CRIAR – SISTEMA DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA conseguiram feitos importantíssimos nos últimos anos, com redações nota 10 em 3 anos seguidos e seis alternados.

2. O recurso da analogia de diversas formas foi criado por nós, portanto ele representa um diferencial muito grande entre nós e os nossos concorrentes, mas só deve ser usado com absoluta segurança pelo aluno.

3. Quem sabe precisa de boa sorte. Quem não sabe precisa de milagre. Nossos alunos sabem, a prova é a redação acima.