Por: LUÍS GUILHERME BARBOSA

Liberdade não faz mal a ninguém, mas veja lá o que você vai arrumar!

“Brasil mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim”, disse o poeta Cazuza. O Brasil é um País com esse tamanhão todo; uma imensidão de gente, de terra, de floresta, de alimento, de beleza, mas também de injustiças, de desmandos, de má distribuição de tudo o que se possa imaginar.

Tudo acontece em nosso País, mas como na vida nada é só desvantagem e prejuízo, vimos observando, especialmente no eixo Rio/São Paulo a presença de alunos de outros Estados, que buscam em nossas cidades o sonhado desenvolvimento intelectual, similarmente ao que se dá com o trabalhador. Sejam todos bem-vindos, falo pelo Rio de Janeiro, mas na certeza de que em São Paulo existe o mesmo sentimento.

Procuramos abraçar esses “irmãos” de outros lados com todo carinho e respeito, buscando facilitar-lhes a vida nessa selva de pedra, que é a cidade grande. Contudo, é muito complicado pra quem vai estudar distante de seus parentes, amigos, namorada (o) e tudo o mais e, como bons cariocas, gozadores na essência, a gente dá uma brincada, faz umas molecagens, mas nada que venha a ferir ou magoar ninguém, servindo para criar amizade mais rapidamente.

É mais ou menos o que eu fazia nos tempos de Faculdade, na FRASCE, onde me fazia passar pelo meu querido professor de Fisiologia, Dr. Cláudio Rodrigues, hoje um dos grandes amigos e colegas de profissão, e aplicava aqueles trotes maravilhosos, com roteiro, ensaios, atores e atrizes principais e coadjuvantes e algumas cervejas no bar da Geni ao final.

Encontro, hoje ainda, muita gente boa, colegas de profissão, professores também, que copiaram as “axonites”, “puberiontites”, “vaginitis arrogantis”, tudo inventado para fazer a galera copiar feito louco e sem tempo para pensar. Era muito divertido e aproximava todo muito, mas, quem sabe, um dia consigamos contar esse “causo” com detalhes.

Como vocês devem imaginar, a definição de professor não é: “um carrasco onde o capuz fora substituído por um jaleco, o chicote pela barra de giz e o machado pela caneta”, que certamente vai fazer de tudo para te prejudicar. Ao contrário o professor, muitas das vezes, salva o aluno em várias circunstâncias e de diversas maneiras.

Temos vivido experiências interessantes, pois são mineiros, capixabas, catarinenses, potiguares, soteropolitanos, etc, os alunos com os quais temos tido a oportunidade de conviver ao longo desses anos de magistério superior.

É gente de tudo que é jeito, pobre, muito pobre, rica, muito rica, farrista, brincalhona, organizada, bagunçada; gente que morre de saudades de casa, ou que nem lembra que tem mãe ou pai, que aproveita para trocar de namorada(o), gente que quer colo, que merece castigo, enfim aparece de tudo nas nossas Universidades e o gostoso está exatamente nessa diversidade de sotaques, de culturas, de manias, de preferências – tão marcantes na cultura nacional – de objetivos e, principalmente, nas estratégias de sobrevivência.

Viver no Rio de Janeiro pode ser complicado, uma verdadeira aventura, sozinho nessa selva de pedra, uma loucura. Tudo começa na escolha do apartamento, pois todo mundo quer ficar perto da Universidade e num lugar que seja barato, ou tenha um custo acessível, ao menos. Pronto, começou a bagunça! No dia da matrícula a galera se conhece na fila e monta as “repúblicas”, ou seja, um lugar onde viverá um monte de gente que estuda na mesma Universidade, mesmo que em cursos diferentes.

Quando o pessoal é da mesma cidade de origem fica mais fácil, mas nem sempre é possível isso. Geralmente cada um tem um quarto, mas é comum o uso de um quarto para cada duas pessoas. Tudo pode acontecer, todas as possibilidades podem ser viáveis, quaisquer especulações serão perfeitos exercícios de criatividade, pois a galera não se aperta, no bom sentido!

É uma verdadeira brincadeira na primeira semana. Todo mundo está preocupado com o trote, que, apesar de proibido, pode ser usado de modo inteligente como o trote ecológico (catar latas e objetos plásticos encontrados no chão e jogá-los no lixo), o trote da caridade (doar um quilo de alimentos não perecíveis e entregá-los a uma casa de caridade), aquele trote do nosso tempo de FRASCE, entre outros, sem violência ou abusos de nenhuma espécie.

Entretanto, muitas Universidades proíbem, inclusive, esses tipos de trote, o que não será objeto de discussão aqui. Passada primeira semana vem saudade, de mãe, de pai, de “maínha” e de “paínho”, de minha rainha e de meu rei, de mano, de titia, de tio, de primo, de padre Antônio, de travesseiro, de ursinho, de minha goiabeira no fundo do quintal, de minha praça – “professor, será que a festa da padroeira ta animada!?”.

E nessas horas o(s) professor(es) transformam-se em consolador(as), pois que ficar contando isso para a rapaziada pode ser “pagação de mico”. Tem aquela turma que vai ao primeiro churrasco, também chamado de “Churrasco do Calouro Magro” e “enche a cara” de pinga, até porque acha que a pinga do Rio é mais fraca que a da sua terrinha, e chora todas as mágoas que pode.

Este encontro é importante, pois daí surgem os primeiros apelidos, rolam os primeiros “climas”, os primeiros ciúmes e tudo o mais. Eu tive uma aluna que chorava todos os dias e ligava para casa dos pais todos os dias que chorava, conclusão: o pai chorava de saudades, por um olho e de ver o tamanho da conta, pelo outro, até porque quem está com saudade não fala “oi” e desliga, quer ficar conversando sem cansar.

Mas voltando à questão das estratégias de sobrevivência, lembro das técnicas de lavagem das roupas, pois muitos levavam para casa trouxas de roupa suja para a mãe lavar; outros namoravam a vizinha ou mesmo usavam o branco até ele adquirir aquele grená misturado com cobre.

Outros, por sua vez, não se faziam de rogados e “metiam as mãos na massa” e já dá para imaginar o que acontecia. Lembro-me de um aluno, um baiano (sem preconceitos contra a Bahia, ao contrário estou é triste porque os amigos Prof. Paulino e Profª Mirca não me levaram para o ENAF-Bahia, em Janeiro próximo), mas é que o cara tinha acordado em cima da hora da prova, a roupa estava molhada e por passar e ele vestiu-a assim mesmo e foi para a prova.

Quando aquela figura “massa”, ou “porreta” adentrou o recinto, inclusive a prova já havia começado, quase houve uma epidemia focal de parada respiratória por fadiga do diafragma, de tanto que o pessoal ria e não conseguia parar. Pelo menos quebrou a tensão da prova. E por aí vai, a rapaziada sempre arrumando confusão, sempre se metendo em encrencas e, na maior parte das vezes, nós os professores é que ajudávamos nas soluções.

E por falar em aluno, recebi um feedback interessante de um aluno da UNIG, o Giovani, sobre aquela questão da comunicação entre paciente e fisioterapeuta. Nosso aluno relata algumas “pérolas”, encontradas no dia-a-dia da profissão, do tipo: “- doutor estou com captura do ministro”; “- o Sr. Sabe que eu fui atropelado e sofri um reumatismo craniano” ; “- o que me mata é essa escabiose na coluna”; “- puxa doutor, eu acho que esse tênis colocaram em minhas costas não adiantou nada” e pra terminar: “- doutor, operei o perini e não consigo encontrar um remédio genético, tá tudo muito caro”.

Mas é aquilo, essa gente simples, que Papai do Céu nos permite orientar e assistir merece todo nosso respeito e carinho, pois somos nós o esteio na hora da dor e o exemplo para seus filhos seguirem, na tentativa de um mundo melhor e mais justo para todos.
Mas não é que acabou, sô! Tem horas que fico imaginando as expressões faciais, as caretas do pessoal lendo essa coluna e penso que se visse algumas delas, provavelmente me divertiria quase tanto quanto escrevendo.

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“A criatividade consiste em ver o que todo mundo vê e pensar o que ninguém pensou”.

Szent Gyorgi, Nobel de química.