Pensei por diversas vezes em como começar este artigo. Rasguei inúmeras folhas com idéias soltas, mas irremediavelmente minha lembrança resgatava uma frase no livro intitulado Língua Portuguesa de Fernando Pessoa a respeito das palavras. Passo, então, a utilizá-la como meu ponto de partida.

“Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma”.

Uma frase de verdade cristalina. Ver bem uma palavra é enxergar todo um povo e como consequência a cultura que lhe é inerente. A escrita é um fenômeno puramente cultural que se fixa culturalmente falando por meio de normas e regras e é nesse ponto que nos deparamos com a tão discutida reforma.

Estamos diante de outra reforma ortográfica que impostamente nos traz mudanças não só na maneira de escrever (como julga a maioria das pessoas), mas também de refletir e lidar com as palavras. Parece exagero à primeira vista colocar que é um novo modo de reflexão sobre a língua. Entretanto como a palavra escrita permanece mais do que a falada, aquela tem um caráter de durabilidade muito grande e com certeza, por meio dessa reformulação, trará novos desafios em lidar com esse universo de letras, sílabas, palavras, ideias, modos de pensar colocados no papel ou na tela do PC.

O objetivo que moveu todo esse rebuliço ortográfico partiu dos governos dos países lusófonos com a intenção de UNIFICAR a língua facilitando o livre comércio.

Particularmente, considero o termo UNIFICAR muito amplo e perigoso, pois uma língua jamais poderá ser unificada como se fosse algo plausível de molde em caixa. Ela, como disse Pessoa utilizando o termo palavra, carrega a alma dos falantes, não é de caráter só material e desvinculado do ser que a fala.

Há uma relação de interdependência da língua com o falante e vice-versa. O que talvez se queira é uma APROXIMAÇÃO. Unificação me parece utopia barata para aquecer comércios ávidos por driblar a crise.

Não sou radical quanto à reforma, há melhorias como, por exemplo, a inclusão das letras k, w e y (que por sinal nunca deixaram de ser utilizadas aqui no Brasil), porém, como professora de Língua Portuguesa, discordo de muitos aspectos da atual reforma.

Creio que muitos deles dificultarão a leitura como a queda de alguns acentos diferenciais. Outros relacionados aos hífens simplesmente dificultarão a escrita e não me parecem tão problemáticos de serem entendidos num acordo comercial entre os países lusófonos a ponto de necessitarem de tradução de português para português.

Toda essa confusão gerada é prejudicial ao público que desconhece aspectos profundos da língua e que acaba buscando no simplismo da modificação de regras um meio para também querer a redução ou anulação das demais como se elas fossem desnecessárias. Dois anos serão suficientes para moldar o que já está enraizado na mente da maioria? E quanto aos outros tantos cidadãos que já passaram por reformas anteriores, esse tempo será suficiente? Alguém com poder de decisão questionou isso antes da estipulação de prazos?

Pensemos: por mais que se tente aproximar hoje a língua dos países lusófonos, as diferenças voltarão a existir e consequentemente preferências de falares também. Vemos que o problema está basicamente numa reformulação puramente ideológica movida por motivos utópicos de cunho mercadológico dificultando reflexões conscientes sobre a língua e o aspecto social da ortografia.

Retomando o que o professor Evanildo Bechara disse: o fato é que continuarão existindo porções de linguiça em cardápios de botecos sendo vendidas sem molho e porções em lanchonetes da mesma lingüiça com molho. O ideal é sermos poliglotas na própria língua.

Andréia Honório da Cunha – Professora de Língua Portuguesa